A propósito da matéria sobre os doidos da Penha, trazida à colação deste periódico pelo amigo e colunista Hildenando Bezerra, gostaria de também tecer algumas considerações sobre o assunto.
Um homem desconhecido tenta salvar da morte um suicida. Ninguém sabe sua origem, seu nome, sua história. Proclama aos quatro ventos que a sociedade moderna se converteu num hospício. Com uma eloqüência cativante, conquista seguidores para vender sonhos. Ao mesmo tempo em que arrebata as pessoas e as liberta da rotina, começa a arrumar inimigos. Seria ele um sábio ou um louco? Este é o resumo da obra de Augusto Cury, “O Vendedor de Sonhos”. Uma história cativante que tem muita pertinência com os dias atuais.
Aliás, como assinala o adágio da sabedoria universal, Deus usa os loucos para confundir os sábios.
A propósito, conta-se que um pobre coitado, tido como louco, vivia de esmolas. Um grupo de pessoas que costumeiramente bebia em um bar, habituou-se a “fazer hora” com a cara do pobre coitado e toda vez que o mesmo passava o chamavam para que fizesse a escolha entre duas moedas: uma maior de R$ 0,25 e outra menor de R$ 0,50. O maluco sempre escolhia a moeda maior que tinha menor valor. Aquela alternativa deixava os fanfarrões extasiados.
Certo dia, um deles chamou o biruta e perguntou se ele ainda não havia percebido que a moeda maior valia menos. Eu sei! Afirmou o doido. Ela vale a metade da outra, mas no dia que eu escolher a outra, a brincadeira se acaba e vocês não vão me dar mais dinheiro.
Desta forma, podemos tirar a conclusão de que quem às vezes parece idiota, não o é. Ou se você é ganancioso demais, pode acabar perdendo. Afinal, quem são os verdadeiros loucos da história? O que importa não é o que pensam de nós, mas o que realmente somos.
E por falar em doidos, acho que eles estão sumindo ou somos nós que também estamos ficando birutas. Pelo menos, não os vejo mais como nos tempos de outrora.
Do meu tempo de infância, morando na Praça da Matriz, lembro-me de vários loucos, dos quais se destacavam Neném Meu Bem, Baú e Zé Cachacinha, este último, mais alcoólatra do que maluco.
Neném Meu Bem, pequenina, andava sempre fantasiada, como se todo dia fosse festa de carnaval. Na Praça da Matriz, na fila do Cine Alvorada, ao lado dos pipoqueiros e sorveteiros lá estava ela, numa elegância exagerada, maquiagem intensa, óculos escuros de gatinha, os bolsos cheios de papéis, fita colorida no cabelo, vestida de tafetá azul celeste.
Baú, não sei de onde veio o apelido. Talvez fosse natural do distrito que traz o seu nome. Era um homem pequeno e forte, elétrico, ou melhor, movido a vapor, pois vivia correndo pelas ruas apitando como o trem. Parecia não querer incomodar com sua presença. Mas, assim mesmo, tinha inimigos implacáveis que o perseguiam. Vivia machucado por agressões. Ele aporrinhava, apenas por ser diferente. Não sei até quando permaneceu no palco da cidade.
Zé Cachacinha, de tanto beber ficou meio “lelé da cuca”. Dormia pelas calçadas. Via coisas do outro mundo... Certo dia chegou com a conversa estranha de que tinha pegado uma briga no inferno e assassinado o capeta. Mostrava as mãos, dizendo que estavam sujas de sangue. Tresvariava, naquela loucura insana, com histórias sem pé nem cabeça.
Evidentemente, na cidade existiam outros doidos, mas esses três marcaram minha infância de forma mais intensa. O interessante é que nunca encontrávamos todos no mesmo lugar. Cada um tinha seu espaço para fazer sua aparição e performance. Só consigo reuni-los nas efemérides de minha memória. Baú, correndo e apitando como trem, Neném Meu Bem, com suas roupas extravagantes e Zé Cachacinha, exalando o cheiro forte de aguardente, voando em seus devaneios pelas capoeiras brancas do algodão que, iguais a ele, sumiram de Iguatu.

