| O encontro |
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| Escrito por Everton Alencar | |||
| Sex, 25 de Maio de 2007 18:00 | |||
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“ Mas restou o prazer, gravado no ar...” Drummond No carro, aumento o volume do som. Música é massagem, se não for moderna, o que quer dizer barulho. O ardil foi bem sucedido: consegui sair cedo do trabalho. Uma tia teve um enfarto; boa desculpa; velha, mas dá certo sempre. Vidros fechados; fora do mundo. Falta ainda meia hora. As mãos já estão suadas; ansiedade. Preciso chegar primeiro, assim tomo alguma coisa e me acalmo. Esse frio na espinha vale a vida, palavra como vale ! Sem esse frisson, sem essa comichão na alma seríamos apenas burocráticas sombras caminhando para a morte. Fora dos limites da cidade. Não falta muito. Milton, no Lost Paradise, situa o paraíso tão longe do homem. O meu é semanal e está tão perto. É à tarde, pra não despertar suspeitas. “Antes à tarde do que nunca”, lembro do engraçado anúncio. Chegamos. Enfim. A chave tem o número sete, sempre. Superstição. Ela virá em outro carro. Por que vem me encontrar ? Por que age assim ? O que faço aqui ? Sempre tenho estes pruridos morais quando chego, antes de um banho e de um uísque duplo. Ela não deve tardar. Chegará preocupada, jogando a bolsa para um lado e dando-me um beijo formal. O cabelo preso, o vestido bem composto. Como pode parecer tão séria ? Sem ao menos sentar-se, olhará no espelho e dirá, desafiadora: - O que disse a ela hoje ? - De novo essa pergunta idiota. Refutarei grosseiramente. Talvez chore. Acontece algumas vezes; talvez diga ofensas, queixumes, cobranças sempre as mesmas. Fico sempre calado. Olho sua beleza enquanto ela briga comigo; olho-a qual um garoto que roubou uma fruta ou um doce e vai comê-lo escondido. - Estou falando com você; não está me ouvindo ? É preciso esperar que uma mulher se cale. Demora, mas acaba acontecendo. Ademais, ela é linda. - Vou embora; não volto aqui nunca mais. Dirá isso enxugando as lágrimas. Como podem ser tão fáceis essas lágrimas ? Continuo calado, ainda a olhá-la. Meu silêncio é uma permissão para que se vá, mas sei que não irá. Até os vulcões se cansam. Ela vai parar. Começa soltando o cabelo. Negro, cairá sobre os ombros macios como um pedido de perdão por tanta besteira que disse. Depois, pacificada, sentará ao meu lado na cama, pondo os brincos sobre a mesa. O colo arfando por sobre o transparente tecido. A leve maquiagem desapareceu com o pranto e o suave baton agora se mistura com a saliva que umedece os lábios. Olharemo-nos ainda sem qualquer palavra. Onde foi parar a louca das brigas ? Só uma menina agora. O olhar continua fixo, mútuo, revelador. Sabendo que não é preciso mais nada, direi: “vem, vem aqui !” Ela virá. Ela se entregará como sempre. Como se fosse uma águia num vôo cego; uma pedra jogada num abismo sem fundo, um suspiro de gozo atravessando a noite.
EVERTON ALENCAR
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