O Poema de Drummond Escondido na Música de Antônio Cícero

25/10/2024

Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural

Nessa semana nos despedimos do poeta, escritor, letrista da MPB e Imortal da Academia Brasileira de Letras – ABL Antônio Cícero.

E, para homenageá-lo, hoje quero escrever sobre uma curiosidade que, acredito eu, pouca gente percebe na letra de uma canção de sua autoria, gravada pela sua irmã Marina Lima, em 1987. Trata-se da canção “Virgem”.

Há um trechinho na música que diz assim:

“Os inocentes do Leblon

 Esses não sabem de você

O farol da Ilha

Só gira agora”

 

A expressão foi extraída do poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade, publicado no livro “O Sentimento do Mundo”, pela editora Record, em 1940. Nele, Drummond diz:

“Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar

Trouxe bailarinas?

Trouxe emigrantes?

Trouxe um grama de rádio?

Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,

Mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem”.

 

Antônio Cícero nasceu no Rio de Janeiro em 06 de outubro de 1945. Durante sua carreira, Cicero também fez parcerias com nomes como João Bosco, Orlando Morais, Adriana Calcanhotto e Lulu Santos. Entre seus sucessos, também está “O Último Romântico”, de Lulu, que foi lançado em 1984.

Como escritor, Cicero publicou quatro livros de poesia: “Guardar” (Editora Record, 1996), “A cidade e os livros” (Editora Record, 2002), “Livros de sombras: pintura, cinema e poesia” (2010) e “Porventura” (Editora Record, 2012).

Em 10 de agosto de 2017, ele foi eleito para a cadeira de número 27 da Academia Brasileira de Letras, substituindo Eduardo Portella. Ele tomou posse em 16 de março de 2018.

Cícero tinha Alzheimer e morreu na última quarta-feira, 23/10, na Suíça, aos 79 anos de idade.

Pois bem, recentemente eu li uma frase do Érico Veríssimo, no livro “Olhai os Lírios do Campo” que me chamou muita atenção. A frase dizia o seguinte: “felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente”.

Acredito no Érico Veríssimo. Tenho a certeza absoluta de que Antônio Cícero foi um homem feliz, pois a sua vida, representada pelo seu som e a pela sua palavra, passou longe de ser inútil. Muito pelo contrário, sua vida foi célula transformadora para todos aqueles que abriram os seus corações para esse grande artista.

Muito obrigado por tudo e por tanto, Antônio Cícero!

Continuamos por aqui!

Até a próxima!

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