Banho de desaparecimento

26/07/2025

Outro dia, chamei a atenção do meu filho por uma mania nova que ele adquiriu: começar uma conversa e não saber como encerrá-la. Talvez seja um hábito antigo e bem brasileiro: perguntar, inquirir ou afirmar algo e depois agir como se a conversa nunca tivesse acontecido.

Quem é comerciante sabe bem do que estou falando. A pessoa pergunta o valor de um item, um livro, por exemplo. Ao ser informada, simplesmente some, sem sequer agradecer pela atenção ou disponibilidade. É como se, num instante, esquecesse o que queria saber – se é que realmente queria saber.

Quando eu lecionava, sempre notava esses pequenos traços de grosseria do nosso “homem cordial”. Entrar na sala de aula sem pedir licença, interromper sem antes sinalizar que queria falar, e assim por diante.

Inclusive, tive discussões acaloradas com outros professores sobre o assunto. Eu defendia, na época, que o professor não é, em sentido amplo, um educador. A tarefa de educar os filhos com os rudimentos do bom senso caberia aos pais.

O sistema educacional, no entanto, vai de encontro a esse pensamento. Nele, o professor precisa ser o “psicólogo”, o “pai temporário”, o “encantador”, o “exemplo de conduta”, etc. O problema é que não há uma preparação para que os docentes exerçam todas essas funções ao mesmo tempo.

E mesmo que houvesse uma disciplina voltada para isso, o tempo e o cronograma escolar não permitiriam um aprofundamento ou mesmo uma aula específica que ensinasse, por exemplo, boas maneiras: a importância de ouvir antes de falar, de ter palavra (“sim, sim; não, não”), de cumprimentar ao chegar e ao sair.

Uma aula sobre não incomodar os outros por coisas que não queremos ou não podemos comprar. Um “papo reto”, como se diz por aí, sobre assumir o “B.O.”. Em uma palavra: responsabilidade.

Hoje, na função de comerciante, sigo a mesma máxima: não estou aqui para dar bronca em quem não sabe o que quer; ou em quem aparece no estabelecimento com conversas sem noção, polêmicas falsas ou rinhas políticas. Às vezes, querem comparar preços sem o mínimo conhecimento de como funciona o mercado em que opero.

Diferente do período em que era professor, hoje posso dar de ombros, ficar lendo ou simplesmente calar. Sem precisar me indispor com ninguém. Sem precisar dar opinião sobre isso e aquilo.

Agora, só existe uma pessoa a quem posso e devo educar: meu filho.

 

Marcos Alexandre: Pai de Edgar, leitor, Professor de literatura e redação, cinéfilo e aspirante a escritor.

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