Professor iguatuense recebe patente de larvicida natural à base de biribá

13/09/2025

Alzeir Machado desenvolveu pesquisa durante o doutorado na Universidade Estadual do Ceará

A partir da tese de doutorado do professor e pesquisador Alzeir Machado, em Biotecnologia, com a invenção de um larvicida natural a base de biribá, fruta natural do Pará, contra os mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, a Universidade Estadual do Ceará – UECE recebeu a titularidade da patente da invenção desse larvicida, uma vez que o pesquisador Alzeir estava vinculado à instituição à época do doutorado.

O pesquisador, que é professor do Instituto Federal do Ceará, campus Acopiara, teve a orientação da professora Selene Maia de Morais, líder do Laboratório de Química de Produtos Naturais da UECE e contou com a participação de Alice Araújo da Silva, bolsista de iniciação científica, vinculada ao projeto.

O professor Alzeir Machado, em conversa com o A Praça, explicou um pouco sobre esse estudo, que foi despertado ainda quando era professor no IFPA (Instituto Federal de Educação do Pará). “Essa patente é um produto da minha tese sobre a orientação da professora Selene. Estamos como inventores, eu, a professora Selene Morais, e Alice Araújo, bolsista vinculada ao projeto. A ideia surgiu a partir de uma pesquisa bibliográfica que resultou em um artigo de revisão sobre o potencial de extratos vegetais no controle de mosquitos vetores da dengue, publicado na Asian Pacific Journal of Tropical Medicine. Nesse levantamento, identificamos que a família Annonaceae (ata, graviola e biribá) apresentava alto potencial larvicida. Quando assumi como professor do IFPA, em visita à feira do Mercado Ver-o-Peso, em Belém, fiquei bem curioso e passei a observar o biribá, um fruto semelhante à ata e à graviola, mas com coloração amarela. Conversando com vendedores, percebi que era muito comum na alimentação local. Fizemos então uma nova busca bibliográfica e constatamos que não havia estudos sobre formulações baseadas em isolados dessa espécie para o controle larvicida de mosquitos, o que deu caráter inovador à pesquisa e fundamentou o pedido de patente.”

De acordo com os estudos apresentados a partir das sementes do biribá, foi conseguido isolar duas acetogeninas (rollinicina e rolliniastatina-1). “Essas substâncias apresentaram desempenho larvicida surpreendente: cerca de 100 vezes mais letais contra mosquitos do que o óleo essencial de cravo-da-índia (que investiguei no mestrado) e aproximadamente 200 vezes mais letais do que o óleo essencial de marmeleiro (que tínhamos investigado no início do doutorado). Esse diferencial de potência coloca a formulação em um patamar superior em relação a outros larvicidas naturais já conhecidos”, disse, apresentado os diferenciais da planta em relação a outros larvicidas já existentes.

Desde 2016, há quase 10 anos que foi iniciada a pesquisa. “Esse processo, desde a concepção da ideia até o depósito da patente, levou alguns anos. A pesquisa bibliográfica foi iniciada em 2016, aquisição dos frutos entre 2017-2018, preparo e isolamento dos compostos (2018-2019), formulação dos extratos e testes larvicidas em 2019, até a consolidação dos resultados que permitiram o pedido de patente que foi há cinco anos, 2020”, pontuou.

Por ser um produto de origem natural, diferente de produtos sintéticos, o uso do larvicida a base do biribá é sustentável e seguro para o meio ambiente. Ainda segundo o estudo, “Trabalhamos com sementes de frutos adquiridos em feiras, ou seja, aproveitando um subproduto que normalmente não teria valor comercial. Além disso, a formulação é de origem natural, o que reduz riscos ambientais e favorece um uso mais sustentável em comparação a larvicidas sintéticos tradicionais. Além disso, os nossos testes revelaram que não há toxicidade significativa contra o modelo de vertebrado testado, o peixe zebra, o que reforça a segurança do produto. Este organismo modelo é altamente sensível, o que torna essa espécie passível de análise de toxicidade e monitoramento de contaminantes ambientais devido à sua homologia genética com mamíferos”, ressaltou.

Mais benefícios

O professor destaca ainda os potenciais benefícios do biribá no combate a doenças como dengue, Zika e Chikungunya. “A invenção traz a possibilidade de um larvicida natural, altamente eficaz e seguro, que pode contribuir de forma decisiva para o controle da população de Aedes aegypti, vetor da dengue, Zika e Chikungunya. Isso significa impacto direto na prevenção de epidemias e na redução da carga sobre o sistema de saúde pública. Claro que é um processo que requer pesquisas posteriores e também investimento no desenvolvimento destes bioprodutos”, explicou.

Com a patente conquistada pelo laboratório da UECE, a perspectiva é que haja interesse para produção em escala industrial, como disse o professor. “O fato de já termos o depósito da patente abre portas para parcerias com empresas interessadas em investir na produção em escala industrial e no registro junto aos órgãos reguladores. Entendo que dois passos podem ser dados, o primeiro deles pode ser a busca pela síntese orgânica de acetogeninas ativas, como uma forma menos dispendiosa e obter tais formulações e o outro envolve as etapas de transferência de tecnologias até chegar ao mercado.”

Relevância

Um pesquisador conquistar uma carta-patente é de grande relevância pelo reconhecimento de todo esforço e estudos positivos que vêm sendo apresentados. “A patente representa o reconhecimento da originalidade e do valor científico da pesquisa. Além de proteger a inovação, é um marco importante para mim como pesquisador, pois mostra que nosso trabalho pode gerar impacto prático e contribuir para soluções em saúde pública. Além disso, é a consolidação de um trabalho que já dura mais de uma década, desde o início dessas pesquisas no mestrado, buscando moléculas bioativas que possam ser promissores para o controle de mosquitos que são responsáveis pela transmissão de doenças que sobrecarregam tanto o nosso sistema de saúde”, ressaltou.

Alzeir aponta os próximos passos que devem ser seguidos a partir dessa conquista. Entre esses o fortalecimento de parcerias para dar continuidade aos estudos e buscar empresas interessadas em investir na síntese do larvicida. “Além disso, nos últimos anos, como professor e pesquisador do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, campus Acopiara, temos buscado através da iniciação científica e tecnológica outros achados importantes para o controle larvicida a partir de produtos naturais de plantas. Um ponto importante é destacar o caráter inovador da pesquisa: não havia estudos sobre formulações a base de isolados do biribá com finalidade larvicida. Além disso, o aproveitamento das sementes – geralmente descartadas – reforça o potencial de sustentabilidade da proposta”, concluiu.

O estudo rendeu à UECE sua 7ª carta-patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A invenção descreve produtos obtidos das sementes da fruta biribá (Annona mucosa – Jacq.) como agentes larvicidas contra os dois vetores.

Mais de 3 mil casos de dengue e Chikungunya foram registrados entre janeiro e o início de agosto no Ceará. Essas arboviroses, assim como a Zika, são transmitidas principalmente pelo mosquito Aedes aegypti, mas também pelo Aedes albopictus, conhecido popularmente como mosquito-tigre-asiático.

Biribá

Biribá, “do tupi – fruto da árvore da casca fibrosa”, também é conhecido pelos nomes araticum grande, araticum–pitaiá, aruta do conde, condessa e jaca de pobre. Nativa da floresta amazônica ocorrendo desde o estado da Amazônia até o estado da Bahia.

A árvore chega a atingir 6 a 10 metros quando cultivada ou até 20 metros de altura e 60cm de diâmetro quando nativa, na floresta tropical. A copa tem forma cônica e formada por vários ramos longos abrindo-se nas alturas. As folhas são simples e alternadas com pecíolos e nervura central de cor verde amarelada, de forma oblonga (mais longa do que larga), medindo de 10 a 25 cm de comprimento e 5 a 8 cm de largura, com ápice ou ponta acuminada, ou seja, comprida e aguda. As flores são hermafroditas, pedunculadas e nestas hastes podem surgir mais de uma flor com 3 pétalas e 3 sépalas carnosas de cor verde claras, com nectários localizados na base das pétalas que lembram o aspecto de uma hélice, padrão existente em todas as espécies classificadas antes como rollinias.

 

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