Alexandrovna

01/11/2025

A topique atrasou vinte minutos, ou seja: iria boa parte do percurso de pé, esgueirando-me entre desconhecidos. Senhoras idosas também iam em posições desconfortáveis.

“Eis o Brasil”.

Ia me segurando nas barras de ferro, aos solavancos, trecho a trecho. Zunido do vento nas janelas. Calor, suor, gente se encostando. “Merda de vida”.

Numa parada, três moças subiram e logo foram “ensanduichadas” por dois sujeitos que discutiam o Brasil.

Uma das moças (aparentava ser a mais velha) ficou a três palmos do meu nariz. Notei que ela olhava para mim, sorriso de canto de boca, disfarçando.

Passando por um lugarejo caindo aos pedaços, umas das amigas (as duas já estavam descoladas mais para trás do veículo), ergue a voz: ” Alexandrovna, Alexandrovna! Olha”.

Voltei meus olhos para aquela “Alexandrovna” de interior, meio incrédulo. Enquanto cravava meus olhos nela, um dos sujeitos, passando as costas da mão na testa, falava alto:

– O que estão fazendo no Rio de Janeiro é uma chacina! Fazem porque é favela. Queria ver a polícia, armada de fuzil, entrar nos condomínios dos bandidos ricos.

Já o outro, retrucando:

“Você não diz nada sobre a fala do Lula. O Lula diz que os traficantes são as vítimas. O Lula é amigo dos traficantes”.

Eis o Brasil. Mas coisa estranha: enquanto o sujeito falava em tiros, em chacina, em fuzil, a moça apontou os dedos para mim, em forma de arma; fazia troça, fingia atirar.

Mesmo estando meio velho para esse tipo de acordo, entrei no jogo. E, como não havia muito espaço para me mexer, bati a cabeça no ombro, em sinal de rendição.

Aos poucos, os assentos foram vagando. Ela já havia recusado dois: permanecia de pé, olhando-me por cima do ombro de um dos especialistas em segurança pública, como se travasse uma conversação.

Agora lado a lado, fiz a pergunta inevitável:

– Vem cá, teu nome é mesmo Alexandrovna?

– Infelizmente…

– E se eu te dissesse que é o nome de uma personagem de um livro muito importante?

– Já me disseram.

– Crime e Castigo. Um dos meus preferidos. O nome completo é Pulcheria Alexandrovna.

-Não sou muito de ler. Bem, ao menos me pouparam desse primeiro nome horrível.

– Então detesta o nome?

– Ninguém pediu minha opinião, mas…, mas prefiro ser chamada assim a ser chamada de “Alexia”.

Quis perguntar o porquê do nome, mas percebi que sobre essa história pairava um silêncio pesado.

Mudei de assunto:

– Você tem cara de ex-crente.

– Que mala! Como adivinhou?

– Um ex-crente conhece outro.

Então resolvi fazer bom uso da igreja e contei-lhe uma porção de histórias engraçadas que havia presenciado ou ouvido de outros.

Ela ria muito. Ora se inclinava para a frente, riso solto, ora encostava a mão na minha, de leve. Não pude evitar olhar suas curvas, suas coxas firmes, seus olhos expressivos… Ela me olhava como se soubesse que eu estava me decidindo…

Agora olhos nos olhos, pedindo permissão. Ia fazer o gesto. Súbito:

– Merda.

– O que houve?

– Falta pouco para chegarmos ao nosso destino.

– Tem razão.

– Você tem Instagram, algo assim?

Eu disse-lhe que não. Muito velho para isso.

– Que pena. Gostei da conversa. Você é engraçado.

Antes de descer (ela desceu uma parada antes da minha), ela me cumprimentou, aperto de mão forte. Da janela, ergui a voz:

– Prazer, cara Alexandrovna.

Motorista e cobrador olharam na minha direção, também incrédulos.

Marcos Alexandre: Pai de Edgar, leitor, Professor de literatura e redação, cinéfilo e aspirante a escritor.

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