Desafios para o enfrentamento da invisibilidade social das pessoas em situação de rua no Brasil

07/03/2026

 

 

Davy Dias Paulino

 

A célebre obra “Capitães de Areia”, do escritor baiano Jorge Amado, denuncia e explora o cenário de miséria vivido por pessoas em situação de rua, que sobrevivem às margens da sociedade, excluídas pelo próprio corpo social. Fora da ficção, o tema abordado retrata uma dura realidade no Brasil: a invisibilidade social dos moradores de rua, empecilho esse impulsionado pela animalização dessa população, que tira o caráter civil desse público. Por conseguinte, faz-se imperioso citar outro fator pontual para a perpetuação da problemática: o estigma associado a essa parcela populacional, propulsor do isolamento sociopolítico dessa fração.

Sob esse viés, é fulcral ressaltar a desumanização sofrida pelo eixo social, que contribui para a não realização plena de seus direitos civis e, por fim, prolonga o estorvo. Com efeito, o livro naturalista “O Cortiço”, escrito por Aluízio de Azevedo, relata um sentimento de não pertencimento à sociedade, protagonizado por Bertoleza, em que prevalece um caráter de subordinação e submissão em relação ao restante do ambiente em que vive. Face ao exposto, compreende-se o estado vulnerável vivenciado pelos marginalizados moradores de rua, um panorama de extremo desrespeito à dignidade que inferioriza e precariza as condições de vida desse público, dificultando a execução de sua cidadania, violando seus direitos. Logo, é preciso que o Estado sabe esse imbróglio do atual conjunto social.

Outrossim, convém salientar o preconceito que envolve essa população em situação de rua, obstáculo que é estrutural e cria aversão do corpo social para com essa minoria. De modo análogo, o filme brasileiro “Última parada 174” mostra o produto da animosidade da sociedade junto com o estigma enraizado a moradores de rua, violência e acesso a substâncias ilícitas por parte das vítimas. Sob essa óptica, entendem-se as consequências nada benéficas da rejeição social desse público, que canaliza, em diversos setores sociais, a antipatia em relação a essa população que detém poucos direitos de privilégios no convívio em sociedade. Então, cabe à sociedade a mudança desse quadro que desumaniza outros indivíduos em detrimento de especulações individuais.

Depreende-se, portanto, a primordialidade que há em reverter o espectro supracitado. Para isso, urge ao Poder Legislativo, órgão público responsável pela criação e fiscalização das leis, criar programas de acolhimento e refúgio para as vítimas moradoras de ruas por meio da lei “Casa Comum”, a fim de possibilitar uma estadia e uma melhoria na condição de vida enquanto cidadão desse público e, consequentemente, poder assegurar esse direito à moradia. Somente desse modo, consolidar-se-á, no Brasil, um panorama seguro e digno a todos, garantindo os direitos desses cidadãos, diferentemente daquele visto na obra “Capitães de Areia”.

 

Davy Dias Paulino, filho de Maria Cleidimar Paulino do Carmo e de Cícero Dias de Freitas, estudante do 3º ano “A” da Escola Modelo de Iguatu.

MAIS Notícias
A lei áurea  e a relação com a formação urbana brasileira  
A lei áurea  e a relação com a formação urbana brasileira  

  A lei ÁUREA  assinada em 1888 no Brasil marcou o fim da escravidão e um começo de um novo sofrimento. Na época estima-se que 700 mil negros escravos foram libertos com a referida lei. A nova vida sem escravidão dava ao escravo o direito de ir para onde...

A riqueza poética e social de Alucinação!
A riqueza poética e social de Alucinação!

Lançada em 1976, Alucinação traz em seu bojo uma hierarquização de preconceitos que fulminavam o país, grifando, com sua poética, os verdadeiros outsiders da sociedade daquela época: os pretos, os pobres, os estudantes, os gays, as mulheres, os trabalhadores das...

A Lei Áurea como impacto na formação da área urbana
A Lei Áurea como impacto na formação da área urbana

  A Lei Áurea assinada em 1888 no Brasil marcou o fim da escravidão e o começo de um novo sofrimento. Na época estima-se que 700 mil negros escravos foram libertos com a referida lei. A nova vida sem escravidão dava ao escravo o direito de ir para onde quisesse,...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *