Hoje, sábado, 18, é uma data importante para a cultura iguatuense marcada pelos 27 anos de fundação da Cia Ortaet de Teatro, uma história que começou com sete jovens atrizes e atores, dando ainda os primeiros passos no teatro, e decidiram logo criar um grupo.
Inicialmente motivados pelo desejo de participar de um festival local, acabaram dando início a uma duradoura e exitosa história que se estende até hoje, após o primeiro encontro, ocorrido no Teatro Pedro Lima Verde. “São quase três décadas de trabalho dedicado à comunidade iguatuense, ao teatro de grupo no Ceará e também no Brasil. Por artimanhas do tempo, do espaço e porque não dizer, pelas tramas dos deuses do teatro, 27 anos após o primeiro encontro continuamos nessa resistência”, pontuou José Filho, um dos fundadores e diretor da companhia.
Poucos coletivos conseguem se manter ativos por tanto tempo, de forma ininterrupta, promovendo ações artísticas e formativas e aquecendo a cena cultural, principalmente no interior do estado. “Fazer teatro no Brasil não é tarefa fácil. Quando se trata de teatro de grupo, os desafios são ainda maiores, diante de um contexto histórico e cultural em que as políticas públicas para a cultura nem sempre são prioridade para as autoridades. No Nordeste, e particularmente no Ceará, a realidade não é diferente. Ainda faltam projetos culturais sólidos e duradouros, bem como uma visão que compreenda o investimento em cultura como política pública de Estado, e não apenas como ações pontuais e paliativas”, ressaltou Filho.
Nesse cenário, fazer arte no interior cearense torna-se um ato de resistência. É “nadar contra a maré” e enfrentar a escassez de apoio e incentivo, realidade que se agrava fora dos grandes centros. Sobre essa conjuntura, um dos fundadores da companhia destaca: “A política de incentivo e manutenção de grupos no Estado do Ceará ainda é muito incipiente. Existem editais importantes, como o Edital de Incentivo às Artes e o Mecenas Ceará, mas que não ocorrem com a regularidade necessária. Embora fundamentais, ainda não são suficientes para suprir as demandas dos coletivos.”

Resistência e coragem
Mesmo com iniciativas recentes, como a Política Nacional Aldir Blanc e a Lei Paulo Gustavo, criadas em função da pandemia da Covid-19, os recursos ainda não atendem plenamente às necessidades de médio e longo prazo dos artistas e grupos culturais. Diante dessas adversidades, a trajetória da Cia Ortaet de Teatro é marcada pela persistência. O grupo consolidou-se como referência de resistência e coragem no fazer teatral do interior do Ceará.
Em quase três décadas, a companhia desenvolve processos criativos com base em uma perspectiva democrática, buscando provocar reflexões sobre a realidade social e estimular uma consciência crítica tanto em seus integrantes quanto no público. Com isso surgiu a criação de 18 espetáculos.
Além da produção artística, a Ortaet também investe fortemente na formação cultural. Projetos como Olaria, Caleidoscópio, Um Olhar Teatro, Doce Doze, Atuação, Cine Telha, Ortaet de Portas Abertas e Ortaet Recebe, evidenciam esse compromisso. Mais recentemente, o grupo lançou a Olaria Escola Livre de Teatro, que oferece formação gratuita à comunidade.
“Ao longo desses 27 anos, fizemos com que o teatro promovesse encontros — encontros que fazem pensar, questionar, rir e se emocionar. Viva os 27 anos da Cia Ortaet!”, celebra Aldenir Martins, diretora e uma das fundadoras.
Durante 16 anos, o encontro teve como principal palco o Galpão Ortaet, espaço cultural mantido pela companhia, que funcionava como centro de criação, ensaio e apresentação, além de abrigar intercâmbios com outros grupos artísticos, atualmente o grupo luta por um espaço para continuar essa trajetória. “O Galpão sempre foi nosso lar. Um espaço de criação, mas também de acolhimento para outros artistas. É doloroso saber que ele está fechado neste momento por falta de espaço”, lamenta a atriz Betânia Lopes.

Pertencimento
Ao longo de sua história, a Cia Ortaet construiu uma relação de pertencimento com o público iguatuense, que acompanha e prestigia suas produções, além de participar ativamente das ações promovidas pelo grupo. Mais do que uma companhia teatral, a Ortaet é hoje considerada um patrimônio vivo da cultura local. Essa atuação vai além da formação artística, contribuindo para a construção de identidades, fortalecimento da cultura e transformação social. A experiência dentro do grupo também representa um espaço rico de aprendizagem. Ao longo desses 27 anos, seus integrantes vivenciaram processos criativos intensos, baseados em estudos, trocas, convivência e diálogo com o público, elementos que fortalecem o fazer cultural na cidade. “A Cia Ortaet celebra 27 anos como um verdadeiro patrimônio vivo da nossa cultura, do nosso Iguatu. Para mim, é impossível falar da minha trajetória enquanto artista e admirador dessa potência cultural, sem reconhecer a força dessa companhia, que não apenas revela talentos, mas forma pessoas, constrói histórias e mantém acesa a identidade artística do nosso povo. Para Iguatu, a Ortaet é mais do que uma instituição: é orgulho coletivo, resistência cultural e um espaço onde a arte se transforma em pertencimento. Que esses 27 anos sigam ecoando em muitas outras gerações”, declara Luíz Paulo Ferino, artista, professor universitário e neuro-farmacêutico.





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