
Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
O Nordeste inventou uma das mais belas expressões culturais do Brasil: a festa de São João. E não foi apenas uma festa. Foi uma verdadeira nação construída em volta da fogueira, da sanfona, da poesia e da memória do povo sertanejo. Por isso, quando um artista como Santanna, O Cantador desabafa por estar fora da programação do São João de Campina Grande, a discussão ultrapassa a simples ausência de um cantor numa grade de shows. O debate passa a ser sobre identidade cultural.
Nos últimos dias, Santanna afirmou, durante participação em um podcast, que ficou fora do evento e revelou sentir que existe uma tentativa gradual de afastar artistas ligados ao forró tradicional dos grandes festejos juninos. “Eu só quero entrar onde me cabe”, disse o cantor. Em outro trecho, lamentou: “Se não me querem em Campina, eu vou pra outro lugar”.
O desabafo repercutiu fortemente nas redes sociais e encontrou eco em milhares de nordestinos que enxergam no forró pé de serra mais do que entretenimento: enxergam pertencimento. São João sem Santanna não é São João, é sabor São João.
Santanna não é um aventureiro de temporada junina. É um dos herdeiros diretos da tradição de Luiz Gonzaga, com quem conviveu pessoalmente. Sua carreira foi construída em cima da defesa da cultura nordestina, da valorização da poesia matuta e da preservação do forró autêntico.
Quando um evento que se apresenta como “O Maior São João do Mundo” deixa de incluir artistas que simbolizam a alma do próprio São João, surge inevitavelmente uma pergunta: o que está sendo celebrado? A festa ou apenas o mercado?
Ninguém aqui defende que o São João precise virar um museu musical fechado a novas linguagens. A cultura é viva, dinâmica e dialoga com seu tempo. O problema começa quando a modernização passa a significar apagamento. Quando a sanfona vira figurante. Quando o artista que canta milho, chuva, sertão e fogueira perde espaço para atrações completamente desconectadas da tradição junina.
O São João nordestino não nasceu em camarotes premium. Nasceu no terreiro. No chão batido. No improviso da zabumba. No cheiro de canjica. Na poesia oral dos cantadores. Foi o Nordeste quem transformou junho em patrimônio afetivo nacional.
Campina Grande é gigante justamente porque representa isso. O evento movimenta milhões, atrai turistas do Brasil inteiro e projeta a cultura nordestina para o país. A própria organização do “Maior São João do Mundo” destaca a expectativa de receber mais de 3 milhões de visitantes em 2026.
Mas festas populares não sobrevivem apenas de números. Sobrevivem de símbolos.
E Santanna é um símbolo.
Sua exclusão da programação oficial toca numa ferida maior: a sensação de que o forró tradicional vem sendo empurrado para as margens dentro da própria festa que ajudou a construir. O debate não é contra artistas de outros gêneros; é a favor da preservação de um núcleo cultural que não pode ser tratado como detalhe decorativo.
Porque o dia em que o Nordeste perder a centralidade do seu próprio sotaque cultural será o dia em que o São João corre o risco de virar apenas um grande festival qualquer — lucrativo, grandioso, televisionado… e vazio de identidade.
Defender Santanna é defender a memória do São João.
É defender o menino do interior que aprendeu a dançar ouvindo sanfona.
É defender a poesia simples que sai da boca de cantadores como o poeta Chico Alves.
É defender um Brasil profundo que continua resistindo através do forró.
E certamente está aqui a grande lição desse episódio: o Nordeste até aceita novidades. O que ele não aceita é esquecer quem contou sua história primeiro.
Bom fim de semana e até a próxima!

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