
Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
Certa vez, tive a oportunidade de jantar, aqui mesmo em Iguatu, com o cantor e o compositor Ednardo. Aquilo não foi apenas um jantar, foi um momento luminoso que o tempo me concedeu.
Sentar-se à mesa com Ednardo era, de alguma maneira, sentar-se diante de um pedaço da história cultural brasileira. Não apenas diante do cantor e compositor de Pavão Mysteriozo, mas diante de um homem que ajudou a transformar a música em linguagem de resistência, invenção, liberdade.
Costumo dizer que o tempo constrói os seus próprios heróis. E os heróis verdadeiros são aqueles que conseguem compreender o espírito de seu tempo — ou, melhor ainda, aqueles que conseguem antecipá-lo. Ednardo foi um desses personagens. Sua obra atravessou a ditadura, a abertura política e a redemocratização brasileira levando consigo uma espécie de inquietação libertária que não cabia nos limites impostos pela época.
Naquela noite, entre uma conversa e outra, fiz uma pergunta que, para mim, dizia respeito ao mistério mais profundo da criação: qual teria sido, dentre tantas composições, aquela cuja origem lhe parecera mais estranha, mais inesperada?
Ednardo então contou uma daquelas história deliciosas, saborosas.
Na década de 70, estavam juntos alguns daqueles jovens compositores que faziam da amizade, da provocação e da música uma espécie de laboratório permanente de criação. Entre eles, Ednardo, Climério, Belchior e outro do qual eu não lembro no momento. Surgiu, então, uma ideia: o Ednardo sugeriu que ele e o Climério fossem a um cômodo da casa, e Belchior e o outro compositor fossem a outro. O desafio era: quem, das duas duplas, comporia uma canção mais rapidamente.
E foi assim, quase como uma brincadeira, que, em apenas três minutos, nasceu “Enquanto Engoma a Calça”, de Ednardo e Climério.
O mais extraordinário, contudo, não está apenas na autoria. Está no modo como uma canção capaz de atravessar décadas pode nascer de uma situação absolutamente trivial.
A canção começa quase pedindo licença: “Arrepare não”. E então vem aquela espécie de profissão de fé do artista: cantar seria uma forma de não morrer, uma maneira de não esquecer que “a vida é que tem razão”.
É aqui que a história de Ednardo encontra, de maneira surpreendentemente fértil, o pensamento de Arthur Schopenhauer. Para o filósofo alemão, aquilo que chamamos de mundo não é apenas aquilo que existe diante de nós, mas também aquilo que somos capazes de experimentar e desejar a partir dele. É do choque entre o mundo exterior e a nossa experiência interior que emerge a manifestação da vontade — essa força profunda que nos move, nos inquieta e nos impele a transformar aquilo que já não podemos aceitar. E é justamente aí que a arte de Ednardo encontra uma de suas raízes mais poderosas: diante de um tempo marcado pela opressão, sua inquietação não se calou; transformou-se em música. E quando o desejo de liberdade encontra uma voz, ela deixa de ser apenas uma vontade individual e passa a ecoar como vontade coletivo.
Foi assim que a arte e a filosofia, nesse encontro meio que inconsciente, ajudaram a libertar o Brasil de um mal que não cessa nunca. Sejamos vigilantes.
Não necessariamente porque todas as canções, nem todos os livros, falassem diretamente de política, mas porque ensinaram uma geração a pensar, sentir, imaginar e desejar diferente.
E, com certeza, nenhuma ditadura consegue vencer definitivamente um povo que aprendeu a cantar.
Porque, como nos lembra Ednardo, cantar é uma maneira de não morrer.
E, quem sabe, também uma maneira de lembrar que a vida — apesar de tudo — continua tendo razão.
Bom fim de semana e até a próxima!

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