Era fim dos anos 70. Sob a direção do autor da peça, Eurico Bivar, eu integrava o elenco de “A Cadeira do Dragão”, uma denúncia prodigiosa das atrocidades da ditadura militar. O título, bem se vê, fazia referência explícita a um instrumento de tortura utilizado à larga pelos órgãos de repressão do Estado, a exemplo do DOPS e do DOI-CODI, entre 1964 e 1985.
Tratava-se de uma cadeira comum, sobre a qual era colocada uma folha de zinco ou metal ligada a um fio elétrico desencapado. O torturado era submetido gradualmente a uma forte descarga elétrica, insuficiente para matá-lo, mas bastante para provocar nele dores lancinantes, enquanto o interrogatório prosseguia horas a fio.
Pois bem. Na época, os grupos de teatro faziam um ensaio geral no dia da estreia e outro, a poucas horas do início do espetáculo, para os agentes da Polícia Federal, quando censores sem qualquer qualificação intelectual “cortavam” palavras, expressões ou mesmo trechos inteiros do texto. Isso, ressalte-se, quando não proibiam por completo a representação da peça. A mesma censura era imposta a livros, filmes, músicas e shows.
Esperto e reconhecidamente “atrevido” diante das regras adotadas pelos servidores do regime, com o texto perversamente mutilado em mãos, Bivar toma a arriscada decisão: “Vamos ‘levar’ o texto na íntegra, eles que se f…”.
E assim foi.
Com o teatro da EMCETUR lotado, apresentamos o espetáculo para um público cúmplice de nossa resistência, receosos, no entanto, de que, a qualquer momento, o palco pudesse ser invadido, e, a golpes de cassetetes, chutes e coronhadas, tivéssemos os corpos dilacerados, a exemplo do que ocorrera aos atores e atrizes da peça “Roda Viva”, em São Paulo, anos antes.
Desse modo, entre apreensivos e eufóricos, repito, terminamos a peça aplaudidos em cena aberta — e de pé, ao cair do pano.
Não teríamos, infelizmente, a mesma sorte, meses depois, com “A Noite Seca”, de Geraldo Markan, cujo texto trazia a lume o movimento liderado em Pernambuco por Francisco Julião, em inícios da década de 60, conhecido como as Ligas Camponesas. Dessa feita, a poucas horas da estreia, no Teatro José de Alencar, o espetáculo foi proibido, e agentes da repressão se postaram à entrada do teatro portando algemas, cassetetes e ostensivos fuzis. Nós ficamos ali, em vigília, madrugada adentro, sem que pudéssemos prever qual o desfecho da situação. Tempos de horror.
Sob a direção de Guaracy Rodrigues, o espetáculo só seria apresentado em São Paulo, algum tempo depois.
Quanto à interdição de “A Noite Seca”, já escrevi neste mesmo espaço, evidenciando o inusitado apoio que nos prestaria Caetano Veloso, que fazia show no Centro de Convenções, em Fortaleza, na mesma data. Tempos de horror, reitero.
Volto ao tema, cumpre-me destacar, a propósito do recém-lançado “Chame o Ladrão”, de Miguel de Almeida, livro que acabo de ler e recomendo com grande entusiasmo.
Num texto leve, sem rebuscamento de linguagem e estilo, pautando-se por uma narrativa objetiva e não raro descontraída, o autor dedica-se a expor e comentar como artistas brasileiros conseguiam “driblar” a censura e tornar públicos seus trabalhos, sem abrir mão do conteúdo político e de protesto contra a ditadura e a sórdida manipulação do pensamento crítico, num país submetido a um dos mais sangrentos regimes de exceção de que se tem notícia: o golpe de Estado de 1964.
São histórias imperdíveis, que deixam a nu o que, ao lado de ter sido monstruoso, foi uma indisfarçável prova do que existe de mais sórdido e ridículo nos regimes autoritários de qualquer país: a prática desavergonhada da censura, o império da incompetência e da burrice, da desfaçatez de governantes movidos a ódio e estupidez.
Num momento em que se corre o risco de desastroso retrocesso, a leitura de “Chame o Ladrão”, de Miguel de Almeida, joga luz sobre um tempo de escuridão que a insanidade mental (e o despudor!) de metade da população, toma para si como um ideal: o assassinato da democracia.
Em meio a um festival de horrores, mentiras e expedientes de caráter golpista, em grande medida alimentados por uma imprensa conivente e tendenciosa, ainda há tempo de se evitar a tragédia. Do contrário, como nos versos antológicos de Gilberto Gil, é chegada a hora de escrever e cantar talvez as derradeiras noites de luar.
Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

0 comentários