
A memória cultural e religiosa de Iguatu ganha um importante capítulo de resgate com o lançamento da nova edição ampliada do livro sobre Maria Augusta, assinado pelo pesquisador e escritor Cícero Cruz. A obra aprofunda os registros históricos e a devoção popular em torno da jovem cuja trajetória trágica a transformou em uma das figuras de fé mais reverenciadas do Centro-Sul cearense.
Maria Augusta, conhecida carinhosamente como ‘A santinha popular de Iguatu’, nasceu em 28 de fevereiro de 1951 e faleceu tragicamente em 23 de junho de 1965. Aos 14 anos, a jovem foi assassinada pelo próprio pai no Sítio São Joaquim, a cerca de 10 quilômetros da sede do município, após resistir a tentativas de sedução e abuso. Seu túmulo, localizado no Cemitério Senhora Santana, tornou-se um local de constante devoção popular, coberto por flores, brinquedos, fotos e mensagens de agradecimento deixadas por fiéis de toda a região.
A trajetória da jovem inspirou Cícero Cruz a registrar e preservar sua memória. Ele relembra o início de seu interesse pelo tema. “Eu cresci também escutando a história de Maria Augusta, contada pela minha mãe e pela minha avó. Como eu não tinha todas as informações, quando eu cresci, resolvi colocar no papel para o pessoal também conhecer a história, e fui pesquisar”, disse.
Em 2009, Cícero publicou um livreto sobre a vida da jovem. “A primeira edição saiu muito resumida. Eu vim para cá no Dia de Finados, o pessoal estava aglomerado e eu falava que ia sair a primeira edição, e todo mundo quis adquirir. Quando eu olhei, estava com um bloco cheio de nomes de pessoas, aí eu tive que fazer esse livro”.

Com o passar dos anos, Cícero continuou a aprofundar suas pesquisas para oferecer uma obra mais abrangente sobre Maria Augusta. Ele detalha o processo de elaboração do novo trabalho “De lá para cá, eu venho pesquisando e chegamos a um livro mais robusto, com mais informações, com mais relatos, que fala sobre a história dela em si e também sobre a devoção popular de Iguatu e das pessoas de toda a região. Esperando chegar a um livro melhor, fui ainda ao sítio para poder pegar mais informações. O livro vai ter, além da história dela, capítulos sobre os guardiões dos devotos de Maria Augusta, fotografias, inclusive o cenário onde ela foi assassinada a gente recriou, porque a casa lá no São Joaquim já foi demolida, foto da escola onde ela estudou e, fora as entrevistas também com jornalistas aqui de Iguatu, a reportagem com Dom Edson em 2017, que fala sobre o olhar da Igreja perante Maria Augusta. Então, esse livro teria que vir para poder complementar a história dela e para me redimir um pouco da primeira edição, que saiu bem resumida”.
Questionado sobre como a família de Maria Augusta reagia à história ao longo do tempo, Cícero refletiu sobre o impacto do trauma vivenciado na época: “Os familiares dela são um pessoal que, desde o começo, se apresentavam um pouco receosos de comentar determinadas coisas, porque o fato foi muito brusco na época, em 65. Muitas coisas eles não poderiam estar comentando sobre o que acontecia dentro daquela casa. A mãe dela sofreu muito, a dona Iraci. A gente, olhando hoje, não pode acusá-la de omissão porque ela tentou de tudo para evitar isso, mas naquele tempo a mulher era submissa. De 1965 para cá muita coisa mudou, foram criadas muitas leis. Hoje mesmo a gente ainda vê, dentro dos lares, muitas mães que ficam por trás dessa cortina, por vergonha da sociedade. Esse livro serve até de exemplo para as mães abrirem mais os olhos. Só que hoje existe mais a proteção da mulher, e não existiam os recursos nem as leis que garantissem essa proteção antigamente”.

Milagres e beatificação
Sobre os relatos de graças e milagres atribuídos à santinha popular, o autor explicou seu critério de apuração: “Quanto a isso, eu tentei evitar porque não existe documentação, ainda não existe aquele documento que se possa dizer ‘isso aqui foi um milagre’. A maioria das informações dos relatos é oral, de pessoas que obtiveram. Mas a gente não colocou algo que viesse a comprometer o que não tenha documentação”.
Por fim, Cícero comentou sobre o processo formal de beatificação e o papel fundamental da fé popular nesse movimento: “Foi criada uma comissão, um grupo na época de Dom Edson, e no livro tem um capítulo que fala exatamente dessa reportagem, mostrando o procedimento para chegar até lá; não é fácil o processo de beatificação. Eles estão formalizando esse processo ainda. Mas a construção maior que eu acho é do próprio povo. O povo é quem faz a manifestação e impulsiona para a Igreja avançar na documentação”.
Com esta obra ampliada, Cícero Cruz assegura que a história de Maria Augusta não se perca no tempo, oferecendo tanto aos devotos quanto aos estudiosos da cultura cearense uma referência literária essencial sobre a identidade e a fé de Iguatu. As pessoas interessadas em adquirir a obra, devem entrar em contato com o próprio autor, através do WhatsApp: (88) 99246-3847.
A campanha de pré-venda para financiar os custos de impressão e distribuição são altos, por isso, os leitores e devotos interessados em colaborar com o resgate cultural podem adquirir o livro de forma antecipada.




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