O caso Lourival – parte I

25/09/2026

De acordo com o jornal, a vítima tinha sido vista pela última vez por volta das 23 horas. Fora vista pelo senhor Leonardo, um velho de 68 anos, dono do Bar da Esquina, que havia saído para fumar. Ele relatou à polícia que notou que o homem parecia estar apressado enquanto sumia pela neblina noturna do bosque.

Enquanto eu tomava o meu café para fumar o primeiro cigarro da manhã, fechava o jornal e refletia sobre o caso. Lourival fora assassinado com uma punhalada no seu coração. A arma branca ficara cravada no órgão vital do infeliz desafortunado. Tinha 37 anos. Era caminhoneiro de profissão, mas estava desempregado. Vivia com duas velhas tias, suas únicas parentas. Não tinha filhos nem esposa. E, até onde se sabe, não tinha inimigos. Era, na realidade, considerado um homem pacífico e amistoso; bem-quisto na sociedade.

O que mais me intrigava, entretanto, não era a morte. Era a neblina. Naquela pequena cidade, todos conheciam o bosque. Ninguém gostava de passar por ali depois das dez da noite. Não porque houvesse ladrões ou animais perigosos, mas por causa das histórias. Diziam que, em certas noites, uma figura podia ser vista caminhando entre as árvores. Um homem alto. Vestido de preto. Sempre de costas. E havia uma particularidade que tornava a história ainda mais absurda: segundo os moradores mais antigos, quem tentasse acompanhá-lo desaparecia.

Eu nunca acreditei nessas coisas. Até aquela manhã. Às nove horas, o delegado telefonou para minha casa.

— Você leu o jornal?

— Acabei de ler.

— Então venha até aqui.

— Alguma novidade?

Houve um silêncio do outro lado.

— Encontramos uma coisa no bosque.

Não perguntou se eu poderia ir. Apenas desligou.

Quando cheguei à delegacia, o delegado estava diante de uma mesa com alguns objetos dentro de sacos plásticos. Havia um relógio de pulso, um pedaço de tecido escuro, um maço de cigarros e uma fotografia.

— Tudo pertencia a Lourival?

— O relógio e os cigarros, sim. O resto ainda não sabemos.

Peguei a fotografia. Era uma imagem antiga, aparentemente tirada diante do Bar da Esquina. Leonardo estava nela. Muito mais jovem. Ao lado dele havia três homens. Um deles era Lourival. Senti um arrepio.

— Isso é impossível. — O delegado franziu a testa.

— Por quê? — Apontei para a fotografia.

— Porque essa foto parece ter sido tirada há uns trinta anos.

— Foi o que pensei.

Olhei novamente. Lourival não parecia ter mais de sete anos de idade.

— Quem são os outros?

— Ainda estamos tentando descobrir.

Naquela tarde, fui ao Bar da Esquina. Leonardo estava atrás do balcão, limpando um copo. Quando entrei, ele me olhou demoradamente.

— Veio por causa da fotografia? — Parei.

— Como sabe da fotografia? — Ele continuou limpando o copo.

— Porque eu estava lá.

— Na fotografia?

— Não. — Ele colocou o copo sobre o balcão.

— Naquela noite.

O bar estava vazio.

— O senhor viu Lourival naquela noite?

— Vi.

— E depois?

Leonardo olhou para a janela. A neblina começava a descer sobre as árvores.

— Depois ele entrou no bosque.

— Sozinho? — O velho demorou a responder.

— Não.

Senti um frio percorrer minha nuca.

— Quem estava com ele?

Leonardo levantou os olhos.

— Você acredita em fantasmas?

Sorri.

— Não.

— Eu também não acreditava…

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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