Duelo cancelado: quem realmente amarelou?

03/10/2026

 

Professor Pierre Wirom

 

O tão aguardado duelo de honra antes da batalha nas urnas não aconteceu. Os cavaleiros não entraram na arena, e o tradicional debate promovido pela Rede Globo foi cancelado. Lula já havia desistido. Flávio Bolsonaro, quando percebeu que o jogo havia mudado algumas peças em cima da hora, também desistiu.

Há um risco nisso: o de parecer covarde. Afinal, a política também é teatro: tem palco, personagem, encenação e plateia. Na política, essa ausência também fala. Diz o seguinte: o político que sobe ao palco, desafia o adversário e enfrenta o combate transmite coragem. O que não comparece corre o risco de parecer acuado. E isso não pega bem.

No palco da política, o público pode até perdoar a derrota. O medo, jamais. A plateia detesta covardes. E não estar presente no último grande confronto antes do “Dia D” pode assim ser visto.

“Covardes! Afinal, um governante forte deveria enfrentar seus adversários, aceitar o confronto e não escolher as batalhas que lhe são convenientes”, diria você. Pode até ser. Mas isso do ponto de vista moral. Do ponto de vista frio e calculista do jogo político, as coisas não funcionam assim.

Lula percebeu que entrar naquele palco poderia significar enfrentar não um adversário, mas quatro. Em vez de um duelo, poderia encontrar uma emboscada. Seria a vidraça diante de quatro pedras. Quatro contra um não é exatamente uma luta de iguais. Nesse caso, talvez a melhor estratégia não fosse mesmo demonstrar coragem, mas evitar a armadilha. Nesse jogo, havia muitos riscos e poucos ganhos.

Maquiavel – velho mestre do jogo – já ensinava a regra de ouro do xadrez da política: o grande líder precisa ser raposa para prever os perigos e antecipar-se às armadilhas, e leão para impor respeito aos adversários.

A raposa não é menos forte porque evita o combate. Seu poder não reside na força do golpe, mas na astúcia de farejar o perigo antes de dar o passo. Jogada de quem sabe jogar. Lição de quem conhece o tabuleiro: quando todo o chão é campo minado, a bravata torna-se a virtude dos tolos.

Flávio Bolsonaro adotou a postura do Leão. Entrou rugindo como caçador, ostentando a armadura da família e prometendo massacre na arena. Mas o cenário ruiu: bastou uma liminar barrar o púlpito vazio de Lula e o tabuleiro ganhar uma peça nova para o bravo leão desistir. Ao perceber que deixaria de ser pedra para virar vidraça, de caçador a caça, a coragem evaporou. Na hora H, o leão feroz amarelou e perdeu a voz, lembrando o famoso Leão Covarde do Mágico de Oz.

No fim, o espetáculo expôs a diferença entre tática e blefe. De um lado, a raposa velha que fareja a armadilha e poupa munição; do outro, o leão de TikTok que só ruge e ostenta suas garras quando pensa que a presa está amarrada.

Apagadas as luzes do palco, resta o veredito do tabuleiro real. Nas urnas, não há roteiro nem encenação. Afinal, quem vencerá o duelo final? A raposa astuta ou o Leão Covarde? Domingo, o povo dará o xeque-mate.

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