“Vem, vamos embora/Que esperar não é saber/Quem sabe faz a hora/Não espera acontecer”. Os versos, extraídos da letra da canção ‘Pra não dizer que não falei de flores’, composta por Geraldo Vandré, em 1968, constituem o estribilho que chamou à luta os estudantes brasileiros.
Em “Quase Romance”, minha primeira experiência em termos de narrativa de ficção longa, reporto-me aos acontecimentos de maio de 1968, na França: inconformados com o conservadorismo do sistema e as regras de separação nos alojamentos da Universidade de Nanterre, França, estudantes iniciaram uma série de protestos, atos de rua e greves que paralisaram a cidade. O movimento ganhou força, redimensionou-se e atingiu proporções inimagináveis.
Chegou a Paris, ocupou ruas e praças, escolas, universidades, alcançou os meios intelectuais e artísticos. François Truffaut e Jean-Luc Godard, cineastas de prestígio, integrantes do que se convencionou chamar de Nouvelle Vague (Nova Onda, em português), pararam a solenidade de abertura do Festival de Cinema de Cannes, arregimentaram adesões, assinaram manifestos, incorporaram-se às manifestações. Algo em torno de 12 milhões de trabalhadores paralisaram as atividades produtivas, numa greve, agora, sem precedentes na história do país. O movimento adquiriu novas configurações, tornou-se ativo contra o autoritarismo e as práticas nazifascistas e logo ultrapassou fronteiras, ganhou dimensões gigantescas, articulou-se de forma incontrolável.
No Brasil, a exemplo do que ocorria em diferentes países, em plena ditadura militar, estudantes secundaristas e universitários saíram às ruas e enfrentaram policiais militares e civis, não arredaram pé, mesmo quando suas lideranças foram alvo da violência insana.
A morte de um deles, o estudante Edson Luís, nas dependências do restaurante Calabouço, em vez do medo e do recuo, ensejou revolta ainda maior. O Brasil quedou estupefato, a ditadura multiplicou seu poderio, a violência propagou-se, veio o AI-5, a tortura campeou nos quartéis e DOI-CODI, pessoas “desapareceram”, num tipo de eufemismo que ainda hoje deveria envergonhar a caserna e golpear de morte e para sempre o golpismo (assim, de forma intencionalmente pleonástica), expondo as vísceras do regime implantado no país em abril de 1964.
Desde terça-feira, reeditando fatos que marcaram nossa história (ocorre-me lembrar das “caras-pintadas” do Diretas-Já) as ruas das principais cidades do Brasil vêm sendo ocupadas por centenas, milhares de estudantes, num movimento ordeiro, crescente e determinado, esteticamente comovente, politicamente correto, humanamente corajoso, abrindo frente contra as ameaças de um monstro redivivo, o monstro fascista, recém saído do ovo da serpente maldita — e contraditoriamente legitimado pelo voto de segmentos retrógrados da população brasileira, matadores de si mesmos, como que enfeitiçados pelo canto de sereia de facínoras do reacionarismo mais reles e mais sórdido de que se tem notícia em muitos anos.
Mais uma vez, e de forma espontânea, circunstancialmente oportuna e inadiável, apenas motivada pela indignação diante das ameaças neofascistas, a juventude estudantil brasileira toma partido, desenterra sonhos, atira-se ao desconhecido, alforria seu olhar para o horizonte em que brilha uma estrela, como a dizer a todos que ainda há tempo para evitar o trágico, e bendizer a liberdade, e cantar aos quatro cantos: o Brasil é dos brasileiros!
*Título do belíssimo filme com que o cineasta Bernardo Bertolucci explorou os acontecimentos de Maio de 1968, na França, lançado em 2003.
Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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