O caso Lourival – final

10/10/2026

 

Foi então que ouvi um ruído vindo dos fundos do bar. Como passos. Lentos. Arrastados. Leonardo ficou pálido.

— Não deveria ter vindo hoje.

— Quem?

Ele não respondeu. Os passos pararam. Durante alguns segundos, nada aconteceu. Então ouvimos três batidas na porta dos fundos. Leonardo deixou o copo cair.

— Ele voltou.

— Quem voltou?

— O homem da neblina.

Naquela noite, não consegui dormir. Às duas e quinze da madrugada, ouvi alguém bater à minha porta. Não eram três batidas. Eram quatro. Levantei-me. Antes que pudesse abrir, ouvi uma voz do outro lado.

— Você está procurando o assassino.

Reconheci a voz. Era Leonardo. Abri a porta. Não havia ninguém. Somente a neblina. E, no chão, havia um pequeno pedaço de papel. Peguei-o. Havia apenas uma frase escrita: “Lourival não era a vítima.” Na manhã seguinte, fui novamente à delegacia. O delegado não estava. Perguntei pelo inquérito. A escrivã me entregou uma pasta. Dentro dela havia o laudo da autópsia. Li rapidamente. Depois reli. Havia algo que não tinha sido publicado no jornal. Lourival não morrera imediatamente após receber a facada. A lâmina atravessara o coração, mas, segundo o legista, o ferimento havia ocorrido aproximadamente quarenta minutos antes da morte. Quarenta minutos.

Era tempo suficiente para que alguém carregasse um homem ferido até o bosque. Mas havia outra coisa. Uma observação escrita à mão no final do relatório: “Há marcas de contenção nos pulsos da vítima.” Fiquei olhando para aquelas palavras. Então compreendi. Lourival não havia corrido para o bosque. Ele fora levado para lá. E alguém queria que todos acreditassem que ele havia encontrado o homem da neblina. Voltei ao Bar da Esquina. Leonardo estava sentado sozinho. Coloquei a fotografia sobre a mesa.

— Quem eram aqueles homens? — Ele não respondeu.

— E quem é o quarto homem? — Leonardo levantou lentamente os olhos.

— Você já sabe.

— Não sei.

— Sabe, sim. — Apontei para a fotografia.

— Aqui há quatro pessoas. O senhor, Lourival e mais dois homens.

Leonardo balançou a cabeça.

— Não.

Pegou a fotografia. Virou-a. No verso havia uma data. 1989. E uma frase escrita à mão: “Para que nunca esqueçamos o que fizemos naquela noite.” Olhei para Leonardo.

— O que vocês fizeram? Ele começou a chorar.

— Não fomos nós que matamos Lourival.

— Então quem foi?

Ele respirou profundamente.

— Lourival.

Fiquei em silêncio.

— Como assim?

— Lourival matou alguém naquela noite. Há trinta e sete anos.

A fotografia caiu de suas mãos.

— Um garoto.

— Que garoto?

Leonardo fechou os olhos.

— Meu filho.

Foi naquele momento que tudo se encaixou. O menino desaparecido em 1989. A fotografia. A lenda do homem da neblina. A história que durante décadas havia sido contada como uma aparição sobrenatural. Mas ainda faltava uma pergunta.

— Se Lourival matou seu filho, por que esperou trinta e sete anos? Leonardo olhou para mim. E sorriu. Foi um sorriso estranho. Quase tranquilo.

— Eu não esperei.

— O que quer dizer?

— Quem disse que eu sou o homem da neblina?

Atrás de mim, ouvi a porta se fechar. Virei-me. O delegado estava parado na entrada. E, ao lado dele, dois policiais.

— Leonardo — disse o delegado. — acabou.

O velho não demonstrou surpresa.

— Eu sabia que vocês viriam.

O delegado aproximou-se.

— Encontramos a faca.

Leonardo sorriu novamente.

— Onde?

— Dentro da sua casa.

Ele permaneceu calado. O delegado colocou outro objeto sobre a mesa. Era o relógio de Lourival.

— E encontramos isso enterrado no seu quintal.

Leonardo olhou para o relógio. Pela primeira vez, seu rosto perdeu a serenidade. Foi então que percebi algo. A fotografia não mostrava quatro homens. Mostrava três. O quarto vulto que eu imaginara ver entre as árvores era apenas uma sombra. A sombra de uma criança. E aquela criança era o verdadeiro motivo de tudo. Leonardo havia passado trinta e sete anos alimentando uma lenda para esconder um crime. Mas não havia fantasma. Não havia maldição. Não havia homem da neblina. Havia apenas um velho. Uma faca. E uma vingança que demorara quase quatro décadas para encontrar o coração certo. Naquele mesmo dia, Leonardo confessou.

Lourival havia sido responsável pela morte de seu filho em 1989. Mas havia uma última coisa que ninguém sabia. Leonardo não havia matado Lourival. Pelo menos não sozinho. Quando o delegado perguntou quem o ajudara, o velho permaneceu em silêncio. Depois olhou para mim. E disse:

— Pergunte às duas tias dele.

Foi quando entendi que a história ainda não havia terminado.

 

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

 

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