
Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
Em 1971, o Brasil vivia o paradoxo sufocante de seu ápice autoritário. Sob as rédeas do general Emílio Garrastazu Médici e o manto de censura institucionalizado pelo AI-5, o regime militar vendia ao mundo a miragem do “Milagre Econômico”. Prédios subiam em ritmo frenético, a industrialização acelerava a passos largos e as massas migratórias empilhavam-se nas metrópoles para erguer a infraestrutura do novo país. Foi justamente nesse cenário de concreto e silêncio forçado que Chico Buarque lançou o álbum e a canção “Construção”, uma obra-prima que operou uma das críticas mais profundas ao sistema da época, disfarçada de pura engenharia linguística.
O poder de “Construção” reside no fato de que sua denúncia social não é panfletária; ela é estrutural. Ao longo de 41 versos alexandrinos terminados invariavelmente em palavras proparoxítonas — que se alternam e se encaixam como blocos —, a música narra o último dia de vida de um operário anônimo que cai do andaime e morre “atrapalhando o tráfego”
Anos mais tarde, ao refletir sobre o processo criativo da canção em uma famosa entrevista concedida em 1973, o próprio Chico Buarque tentou blindar a canção da óbvia perseguição política, mas acabou por revelar a essência do que o regime tentava esconder: “A emoção estava no jogo de palavras. Agora, se você coloca um ser humano dentro de um jogo de palavras, como se fosse… um tijolo, acaba mexendo com a emoção das pessoas.”
A fala do compositor é, por si só, o retrato definitivo do período. Na engrenagem do engodo desenvolvimentista dos anos 1970, o cidadão comum, em especial o trabalhador da base da pirâmide social, perdeu sua identidade. Ele foi transformado em insumo, em material descartável. O operário de Chico “subiu a construção como se fosse máquina”, despido de humanidade pela rotina alienante.
Ao tratar o ser humano como “um tijolo” na estrutura do texto, Chico mimetizou o que a ditadura militar e o capitalismo selvagem daquele período faziam nos canteiros de obras reais: coisificar a vida em nome do Capital. Quando o pedreiro despenca no vazio, sua morte não é uma tragédia humana para a cidade que celebra o progresso; é apenas um nó no trânsito de um sábado qualquer.
Além da genialidade lírica, a composição trazia um ritmo percussivo e mecânico intrínseco. Chico Buarque apontou como a própria prosódia e a estrutura rítmica da letra foram desenhadas de forma quase matemática para simular o ambiente industrial e urbano: a voz, em sua cadência, soava quase como a imitação de um tamborim e de engrenagens em movimento. As palavras foram lapidadas para encaixar perfeitamente no compasso, reproduzindo a rigidez do trabalho operário e a frieza de sua derrocada.
Ironicamente, esse complexo malabarismo formal fez com que a música passasse incólume pelo crivo inicial da censura militar, que costumava focar em palavras-gatilho óbvias e não na sofisticação da ironia e da metáfora estrutural. Quando os censores compreenderam o impacto devastador da canção, ela já ecoava nas rádios de todo o país e vendia mais de 140 mil cópias em questão de semanas.
“Construção” permanece, cinco décadas depois, não apenas como um marco estético da MPB, mas como o mais fiel documento histórico de uma fatídica era. Através das falas de seu criador, entendemos que a verdadeira ousadia de Chico Buarque não foi apenas driblar os generais, mas expor que, por trás dos arranha-céus do “Milagre Brasileiro”, havia um sistema desenhado para moer gente e empilhar corpos na contramão.
Bom fim de semana e até a próxima!

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