A Praça – O que é fibromialgia na prática, e o que a medicina já sabe sobre sua origem?
Dr. Paulo Viana – A fibromialgia é uma condição crônica caracterizada por dor musculoesquelética generalizada e alterações na forma como o sistema nervoso processa a dor. O organismo passa a responder de maneira mais intensa a estímulos que normalmente seriam pouco dolorosos ou até imperceptíveis. Sua origem é multifatorial, envolvendo fatores genéticos, biológicos, ambientais e emocionais. É importante deixar claro que a fibromialgia não é uma doença imaginária nem se resume a um problema psicológico. A dor é real e tem mecanismos fisiológicos que ajudam a explicar o que o paciente sente.
A Praça – Quais os sintomas que caracterizam a doença além da dor musculoesquelética difusa?
Dr. Paulo Viana – Além da dor generalizada, são frequentes o cansaço intenso, o sono não reparador, as dificuldades de concentração e memória, conhecidas como fibro fog, e a sensação de rigidez corporal. Alguns pacientes também apresentam cefaleia, alterações intestinais, ansiedade e sintomas depressivos. A intensidade e a combinação desses sintomas variam de pessoa para pessoa e podem comprometer significativamente a qualidade de vida. Por isso, é importante olhar para o paciente como um todo, e não apenas para a dor.
A Praça – O diagnóstico continua sendo um desafio? Como ele é feito hoje e quanto tempo, em média, o paciente leva até descobrir?
Dr. Paulo Viana – Sim. O diagnóstico ainda pode demorar porque os sintomas são variados e, muitas vezes, o paciente passa por diferentes profissionais e realiza diversos exames antes de encontrar uma explicação. Atualmente, o diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na distribuição da dor, na duração dos sintomas e nas manifestações associadas. Não existe um exame de sangue ou de imagem específico que confirme a fibromialgia. Os exames complementares são utilizados quando necessário para investigar outras condições. Não existe um tempo médio único que represente todos os pacientes, mas reconhecer precocemente o quadro ajuda a evitar investigações desnecessárias e atrasos no tratamento.

A Praça – É verdade que a fibromialgia atinge mais mulheres? Há uma explicação?
Dr. Paulo Viana – Sim. A fibromialgia é diagnosticada com maior frequência em mulheres. Existem hipóteses relacionadas a fatores hormonais, genéticos, neurobiológicos e diferenças no processamento da dor, mas ainda não há uma explicação única e definitiva. É importante destacar que homens também podem desenvolver a doença. Portanto, o diagnóstico não deve ser descartado com base no sexo do paciente.
A Praça – Como o senhor diferencia fibromialgia de outras doenças reumáticas e ortopédicas?
Dr. Paulo Viana – A diferenciação depende da história clínica, do exame físico e, quando necessário, de exames complementares. Na fibromialgia, predomina a dor generalizada associada à fadiga, às alterações do sono e a outros sintomas, sem que o quadro seja necessariamente explicado por inflamação ou lesão estrutural. Já doenças como artrite reumatoide e espondiloartrites podem apresentar sinais objetivos de inflamação. É importante lembrar que essas condições podem coexistir com a fibromialgia. Por isso, a avaliação do reumatologista ajuda a identificar corretamente cada problema e direcionar o tratamento.
A Praça – Fibromialgia tem cura ou é controle? Quais são os pilares do tratamento atual?
Dr. Paulo Viana – Atualmente, não existe uma cura definitiva estabelecida, mas há estratégias capazes de controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida. O tratamento precisa ser individualizado e não deve depender exclusivamente de medicamentos. Educação sobre a doença, atividade física progressiva, melhora do sono, manejo do estresse, apoio psicológico quando necessário e medicamentos selecionados conforme os sintomas são componentes importantes. O objetivo não é apenas reduzir a dor, mas recuperar a funcionalidade, a autonomia e a participação nas atividades cotidianas. Na minha prática, procuro orientar os pacientes a começar com mudanças pequenas, realistas e sustentáveis. Inclusive, organizei essas orientações no meu livro “Você Não Precisa Viver Com Essa Dor — Guia realista para viver melhor com fibromialgia”, um material educativo que desenvolvi para ajudar as pessoas a compreender melhor a doença e encontrar caminhos possíveis para lidar com ela no dia a dia.
A Praça – Qual a função do exercício físico, do sono e da saúde mental no tratamento?
Dr. Paulo Viana – Esses aspectos são fundamentais e precisam ser trabalhados em conjunto. A atividade física regular e progressiva, respeitando os limites de cada paciente, pode reduzir a dor e a fadiga e melhorar a capacidade funcional. O sono também merece atenção, porque dormir mal pode intensificar a sensibilidade à dor e o cansaço. Já a saúde mental influencia a maneira como a pessoa enfrenta a dor crônica, mas isso não significa que a fibromialgia seja causada por problemas emocionais. O acompanhamento psicológico, quando indicado, pode ajudar no manejo da dor e na qualidade de vida, sem negar a realidade dos sintomas.
A Praça – O que há de mais moderno hoje no manejo da doença? Medicamentos, terapias complementares, cannabis?
Dr. Paulo Viana – O avanço mais importante é a compreensão de que a fibromialgia exige uma abordagem individualizada e multidisciplinar. Os medicamentos podem ajudar no controle da dor, do sono e de outros sintomas, mas nenhum funciona para todos os pacientes. Exercícios adaptados, educação em dor e intervenções psicológicas estruturadas também têm papel importante. Em relação à cannabis medicinal, as evidências disponíveis ainda são limitadas e não permitem considerá-la um tratamento comprovadamente eficaz para todos os pacientes. Seu uso deve ser discutido individualmente, considerando os possíveis benefícios, os efeitos adversos, as interações medicamentosas e a situação regulatória. Não existe uma solução única ou milagrosa. O melhor tratamento é aquele que considera as características, as necessidades e a resposta clínica de cada pessoa.

A Praça – O que é mito e o que é verdade no tratamento? O que o paciente deve evitar?
Dr. Paulo Viana – É mito dizer que a fibromialgia é fingimento, preguiça ou simplesmente dor psicológica. Também é equivocado acreditar que o repouso absoluto seja a melhor solução ou que exista um medicamento capaz de resolver todos os casos. O paciente deve evitar a automedicação, o uso indiscriminado de analgésicos e opioides, tratamentos sem evidências confiáveis e promessas de cura. Outro cuidado importante é não iniciar atividades físicas intensas de forma abrupta. O tratamento precisa ser gradual, consistente e adaptado à realidade de cada pessoa.
A Praça – Quais impactos a fibromialgia traz para o trabalho e para a vida social? O paciente tem direitos garantidos por lei?
Dr. Paulo Viana – A dor persistente, a fadiga, o sono inadequado e as dificuldades cognitivas podem comprometer o desempenho profissional, as tarefas domésticas, os relacionamentos e a participação social. Em alguns casos, pode haver necessidade de adaptações no trabalho ou afastamento temporário, conforme a gravidade dos sintomas e a repercussão funcional. No Brasil, existem leis e políticas públicas voltadas à proteção e à atenção às pessoas com fibromialgia. Entretanto, o diagnóstico, por si só, não garante automaticamente aposentadoria, benefício previdenciário ou enquadramento como pessoa com deficiência para todas as finalidades. A concessão depende dos requisitos legais aplicáveis e, quando pertinente, da avaliação individual das limitações e da incapacidade. Por isso, é importante que o paciente conheça seus direitos e busque orientação adequada para sua situação.
A Praça – Que orientação o senhor deixa para quem convive com dor crônica e ainda não procurou um especialista?
Dr. Paulo Viana – Minha orientação é que não normalize uma dor persistente nem conclua que precisa conviver com ela sem ajuda. Procure avaliação médica para investigar as causas, estabelecer o diagnóstico correto e iniciar um tratamento adequado. A fibromialgia é uma condição real, merece respeito e pode ser tratada. Com informação, acompanhamento profissional e estratégias individualizadas, é possível melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida. Foi também com esse propósito que escrevi o livro “Você Não Precisa Viver Com Essa Dor — Guia realista para viver melhor com fibromialgia”. O guia reúne explicações sobre a doença e orientações práticas sobre sono, movimento leve, alimentação, medicamentos, manejo do estresse e estratégias para os dias de piora. O material foi elaborado para ajudar o paciente a compreender melhor o próprio corpo e encontrar passos possíveis para o cotidiano, sem promessas milagrosas.
Quero disponibilizar esse material gratuitamente para que mais pessoas tenham acesso à informação de qualidade. Quem tiver interesse em receber o guia “Você Não Precisa Viver Com Essa Dor — Guia realista para viver melhor com fibromialgia” pode enviar um e-mail para paulovianaatila@hotmail.com, informando seu nome completo e telefone de contato. Será um prazer compartilhar esse material educativo e contribuir para que mais pessoas compreendam melhor a fibromialgia e encontrem caminhos para melhorar sua qualidade de vida.
Perfil
Paulo Átila Viana é médico formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), campus Sobral. Realizou residência médica em Clínica Médica na Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza e residência em Reumatologia no Hospital Geral Dr. César Cals (HGCC), em Fortaleza.



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