Iguatuense lança livro e resgata participação de artistas negros na arte colonial brasileira

17/10/2026

A contribuição de artistas negros para a produção artística no Brasil do século XVIII é tema de pesquisa do artista visual e professor Beethoven da Silva, que lança, na próxima quinta-feira, 22, às 18h30, o livro A Presença do Negro nas Artes e Ofícios no Brasil do Século XVIII, na Biblioteca Pública Municipal Dr. Matos Peixoto, em Iguatu. A programação inclui ainda a exposição Fios de uma Memória em Disputa, também de autoria do pesquisador.

A obra investiga as condições sociais, culturais e educacionais que permitiram a participação de pessoas negras nos ofícios artísticos durante o período colonial. Para Beethoven, compreender essa presença exige ir além do reconhecimento genérico da contribuição negra para a arte brasileira.

“Mais do que reconhecer, de forma genérica, que os negros contribuíram para a construção da arte colonial brasileira, é necessário identificar e reconhecer os artistas responsáveis por essa produção, conferindo-lhes o devido lugar na história da arte”, afirma.

Segundo o pesquisador, a dificuldade de identificar esses artistas está relacionada tanto às características da produção artística da época quanto às desigualdades sociais. A ausência de assinaturas em obras coloniais, o trabalho coletivo e os desafios de conservação de objetos históricos dificultam a atribuição de autoria. Além disso, muitos artistas negros viviam sob condições de escravização e enfrentavam barreiras para ter seu trabalho reconhecido.

Beethoven também aponta uma hierarquia histórica na classificação das produções artísticas. “Há, também, questões de caráter social, como a dificuldade de reconhecimento dos artistas negros, muitos dos quais viviam em condições de escravização, sua invisibilização na história da arte brasileira e a visão hierarquizante que classifica a arte colonial como artesanal, colocando-a em uma posição inferior àquela atribuída à Arte”, explica.

A recuperação dessas trajetórias também esbarra na escassez de registros específicos. Durante a pesquisa, o autor recorreu a livros, artigos, sites e catálogos especializados. Entre as principais referências está A mão afro-brasileira, organizado por Emanuel Araújo, que contribuiu para a construção do levantamento histórico.

Desconstrução do senso comum
Para o pesquisador, ampliar o conhecimento sobre esses artistas permite questionar uma visão da história brasileira que associa a presença negra predominantemente ao trabalho braçal, deixando em segundo plano sua participação intelectual, artística e criativa.

“Essa iniciativa contribui para desconstruir o imaginário coletivo que restringe a participação negra na história do Brasil à força do trabalho braçal, desconsiderando sua atuação intelectual, artística e criativa”, destaca.

Além da pesquisa histórica, o livro promete contribuir para o ensino da arte no país. Embora tenha caráter acadêmico, a publicação foi escrita em linguagem acessível e pretende alcançar leitores para além dos círculos especializados. Beethoven ressalta que a universidade tem papel importante na produção de debates e práticas pedagógicas capazes de chegar à educação básica.

O livro foi financiado por meio de leis municipais de incentivo à cultura e publicado pelo selo Feira do Livro, da editora Diálogo Freiriano.

Exposição
A exposição Fios de uma Memória em Disputa, que integra a programação do lançamento, propõe reflexões sobre memória, identidade e ancestralidade, dialogando com as questões abordadas na pesquisa. A atividade será aberta ao público na Biblioteca Pública Municipal Dr. Matos Peixoto, em Iguatu.
Beethoven da Silva é professor de Arte na rede pública, licenciado em Artes Visuais, especialista em História e Arte e possui formação em Realização Audiovisual. Atua como pesquisador, artista visual, realizador audiovisual e artesão.

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