Debaixo da árvore, ouviram o barulho dos pés na mata.
– Tião, te prepara.
Apagou o cigarro de palha. Soltaram os cães. Tião pôs a espingarda sobre o ombro.
– Desta vez ele se lasca.
Bateu na coxa do companheiro:
– Vamos.
Apenas dez minutos antes, cada em seu mundo, calculando como iriam gastar o dinheiro da recompensa. As pingas, as putas, as vaquejadas. Talvez um agrado à família, talvez.
As folhas farfalhando ao vento, os cigarros, um atrás do outro, sendo apagados pelas solas das botas. À espreita.
Na cidadezinha, corria a boca miúda essa história de um homem, se é que era homem, que corria, uivava e dizia palavras, se é que eram palavras, que ecoavam na fazenda de Geraldo Aldo.
Um homem que corria nu pelas terras. E estando nu, metia medo, pois combater um homem nu era para poucos.
A notícia da recompensa espelhou-se pelas cidades vizinhas. Tião e o zarolho apresentam-se como caboclos experientes. Mas nada disseram sobre os cães.
Eram do zarolho, que numa emboscada levara três tiros no olho esquerdo, mas não caiu. Agora os cães faziam o trabalho das caçadas. Tião atirava. O zarolho levava a fama.
– Patrão, o zarolho conhece estas matas. Pode confiar.
Meia-noite, a hora do espanto. Seguiram no encalço dos cães:
“Pega! Pega! Os cães, furiosos, mandíbulas em sangue, no encalço do louco, se é que era um louco.
A lua subia, feito um balão. Um clarão alumiava. Tião avistou, ao longe, só uma farta juba de cabelos brancos.
– Um velho?
Parou, cansado. Coçou a cabeça. O zarolho advertiu:
– Não pare. Demos a palavra. O dinheiro vale.
Mas onde estavam os cães? O latido foi sumindo aos poucos. Perderam tempo sonhando.
Não viram a corda em laço abarcando as fuças, um a um. Os dois cães, estrangulados, agora pareciam criancinhas choramingando.
Ainda viram um deles estrebuchando e só. Morreram ali mesmo, entre as pedras que davam para o riacho.
Voltaram de mãos abanando e espalharam a lenda que não era homem nem podia ser bicho. Era o carma que batia na porta do grande latifundiário Geraldo Aldo; homem assassino, que tomara de assalto aquelas terras. E o carma não se importava que este homem agora fosse velho, viúvo, e responsável, talvez, pela morte da mulher e filhos, numa vingança macabra de um dos seus rivais de terras.
No riacho da fazenda, já manhã, o capataz veio informar que os caboclos bateram em retirada da cidade.
Arriscou uma palavra:
– Patrão, se eu não tivesse ficado sabendo dos cães antes.
O velho lavava os ferimentos em silêncio. Costas cortadas pelos cipós; marcas de facadas passadas. Corpo esquálido.
– Patrão, um dia pode dar errado e…
Parou. Súbito, entendeu que tudo se repetiria, sempre. Avistou o saco com o dinheiro junto as roupas do velho. A recompensa sempre seria dele mesmo, capataz.
Recolheu-o, também agora em pesado silêncio.
Marcos Alexandre: Pai de Edgar, leitor, Professor de literatura e redação, cinéfilo e aspirante a escritor.

0 comentários