A paixão e a determinação de Herick Moreira na dança pelos palcos do mundo

19/09/2026

A trajetória do bailarino Herick Moreira (Jimmy) é um retrato do poder da determinação humana perante as adversidades. Natural de Iguatu, no interior do Ceará, Herick transformou o sonho de infância em carreira internacional, conquistando espaço como solista da prestigiada Ópera Estadual de Oldenburg, na Alemanha, onde vive, e nos principais palcos do cenário da dança europeia.

A paixão pela dança despertou quando Herick tinha apenas 13 anos. Sem nunca ter assistido a um espetáculo ao vivo, viu o balé clássico pela primeira vez através da televisão, no Programa do Raul Gil, e sentiu de imediato que aquele era o seu caminho. No entanto, na Iguatu daquela época não existiam escolas de dança, professores ou infraestrutura básica para a modalidade. Longe de desistir, Herick buscou apoio na educadora física Glêbia Alexa, que estava montando a Companhia Foco de Dança, onde deu seus primeiros passos. Para se aprofundar, conseguiu apostilas didáticas do Ballet Goretti Quintela, de Fortaleza. Em casa, no chão da própria residência, passou a estudar sozinho a nomenclatura dos movimentos, a postura e a técnica clássica. “Não havia nenhuma possibilidade de estudar dança na minha cidade. Eu não tinha apoio financeiro, era eu por mim mesmo com 15 anos. Mas o meu foco sempre foi a qualidade do trabalho e o aperfeiçoamento da técnica. Essa experiência ninguém nunca vai tirar de mim. Eu passei a encarar a dança profissionalmente, desde então eu vivia para o balé, claro com muitas dificuldades porque eu não tinha apoio financeiro de ninguém. Essa é a minha fortuna”, disse em conversa com o Jornal A Praça, durante sua passagem por Iguatu, recentemente para rever amigos e matar a saudade dos familiares.

Primeiros passos

Aos 15 anos, Herick viajou para Fortaleza e conquistou uma bolsa de estudos no Ballet Goretti Quintela. A falta de recursos financeiros, contudo o obrigou a retornar ao interior pouco tempo depois. Mantendo o foco inabalável, integrou-se à equipe de Carolina Rocha, do Ballet Rocha, em Juazeiro do Norte, onde continuou a ensaiar e a se apresentar.

A grande virada ocorreu quando a escola de Fortaleza o chamou de volta para participar do Festival Passo de Arte. Herick conquistou o 1º lugar na competição diante de jurados de peso, como a primeira-bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Cecília Kerche. O prêmio o levou para o Rio de Janeiro, onde aperfeiçoou seus estudos por quatro anos no Ballet Petite Danse.

Nesse período, acumulou premiações de destaque nacional e internacional: Melhor Bailarino e 1º Lugar no Festival de Dança de Joinville; classificação no Youth America Grand Prix (YAGP), em Nova York; bolsa de estudos para o prestigiado Joffrey Ballet, em Chicago, entre outras premiações.

Consagração nos palcos europeus

Em 2009, o empenho resultou no primeiro contrato profissional com o Balé de Salzburg, na Áustria, sob a direção do coreógrafo Peter Breuer. Dois anos mais tarde, foi contratado como solista da Ópera Estadual de Oldenburg, na Alemanha, onde atuou por mais de uma década. Durante os 12 anos em que atuou profissionalmente na Europa, Herick trabalhou com mestres e coreógrafos renomados, como Jacopo Godani, Antoine Jully, Martin Schläpfer, além de ter interpretado obras de Martha Graham e Bill T. Jones.

Novos rumos na saúde mental e no ensino

Após a pandemia, Herick decidiu encerrar sua atuação direta como intérprete nos palcos. Hoje, ele atua como coach técnico e professor substituto para bailarinos profissionais em Amsterdã (Holanda) e na Alemanha. Além disso, está prestes a concluir a graduação em Enfermagem Psiquiátrica na Europa. “Foi muito difícil porque o balé era minha identidade. Até hoje, uma vez artista, sempre artista. Eu não cortei totalmente o vínculo, como eu falei, eu ainda ensino. Não tomo parte nas apresentações, não estou diretamente ligado aos espetáculos no palco, mas ajudo a preparar os bailarinos na sala de aula, no treino, que sempre foi meu maior amor. Eu sempre gostei das apresentações, dos espetáculos, das performances, mas para mim o treino nas manhãs, a sala de aula, o aperfeiçoamento da técnica, essa foi sempre a minha área mais forte. Então eu ainda sou ligado de alguma forma a isso”, acrescentou.

 

Volta a Iguatu

De volta a Iguatu após 11 anos sem visitar a cidade natal, o bailarino reforça que a disciplina adquirida na dança o acompanha em qualquer área da vida e expressa gratidão a todos que acreditaram no seu sonho desde o início no Sertão. “Não, a última vez que eu vim aqui foi há 11 anos. É bom! Toda vez que eu venho está tudo muito diferente. Eu sempre gosto de reencontrar as pessoas que fizeram parte da minha história no começo, porque eu sempre sou muito grato. Tipo, eu consegui muito, eu cheguei muito longe no meu sonho que eu queria realizar, de ser bailarino, mas nada foi sozinho. Parecia ser sozinho, mas eu sempre tive muita gente que me ajudou, que esteve do meu lado, que me deu conselhos, que acreditou em mim. Então, eu sempre tento reencontrar essas pessoas que fizeram parte da minha história”.

Além da gratidão, Herick também destaca que sempre buscou correr atrás de seus sonhos, não pelo valor financeiro, mas pela persistência de conhecer, trabalhar e crescer na área profissional. “Para mim, foi que eu queria dançar e eu queria trabalhar com certas pessoas, certos coreógrafos. Como artista, independente da área — se é dança, se é música, se é pintura —, acho que todo mundo sabe que o artista não faz muito dinheiro. Então, dinheiro para mim nunca foi o foco. O foco para mim foi a qualidade do trabalho que eu fazia, a qualidade da minha técnica, a qualidade dos espetáculos que eu apresentava e a qualidade das pessoas com quem eu trabalhava. Porque essa experiência, esse conhecimento, nunca ninguém vai tirar de mim. Essa é a minha fortuna”.

Inspiração

“Eu trabalhei com muita gente. Começando com Peter Breuer, que foi um dos meus primeiros diretores… Trabalhei com Jacopo Godani, fiz trabalhos da Martha Graham, Bill T. Jones, trabalhei com Antoine Jully, que foi um dos meus diretores por mais tempo, trabalhei com Martin Schläpfer. Na companhia onde eu trabalhava em Oldenburg era uma companhia bem eclética, a gente tinha uns cinco coreógrafos convidados todo ano. Nesses 12 anos tem muita gente com quem eu trabalhei. E isso foi muito enriquecedor para mim”, comentou, sem esquecer de figuras da dança do cenário brasileiro, entre suas inspirações Cecília Kerche. “Quando eu mudei para o Rio de Janeiro, eu a conheci e fazia aula particular com a Cecília e o marido dela. E não era só por vê-la dançando, mas pelo conhecimento e as coisas que ela me falava. O que ela me falava para fazer antes da aula, depois do treino, o que é que eu tinha que prestar atenção. São conhecimentos que só uma pessoa que conhece muito pode passar. E isso foi inspiração e coisas que eu levo até hoje, não só no balé, mas na vida. Eu nunca pensei que eu ia chegar aonde cheguei. Quando eu achei que chegar a uma escola de dança seria aquilo, saber que o meu caminho era só o começo, eu nunca teria imaginado. Eu sempre quis mais, até hoje eu quero mais, mas sou feliz por ter conseguido realizar isso tudo”, finalizou se mostrando realizado com os caminhos que traçou e que a dança a arte o proporcionou.

 

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