Com mais duas décadas de dedicação à arte, a produtora, pesquisadora e contadora de histórias Carleziana Rodrigues é a personagem do segundo episódio da série especial sobre os fazedores de cultura que movimentam a cena artística em Iguatu.
Carlê, como é mais conhecida, nesta edição vai parar um momentinho seus afazeres para ler sua própria história, aqui no projeto ‘Luz, Câmera, Minha História’. Ela conheceu o mundo das artes ainda na escola, na adolescência. Gostou tanto que até entrou para uma companhia de teatro, a Cia Ortaet. No período que passou por lá, além de atuar, identificou que tem mais ‘coisas’ que fazem tudo aquilo ser apresentado ao público, se apaixonou pela parte técnica, rodando pelos bastidores, aprendeu a dirigir, auxiliar, iluminar e até a fotografar. Porém, a inquietação pelo mundo das artes, a levou mais além, correr atrás do lúdico, a contação de histórias se tornou uma paixão. É tanto que é formada na área. Os contos clássicos não são o seu ‘forte’. Ela gosta mesmo é de contar as coisas do sertão, as histórias de trancoso, as lendas, o imaginário popular. Sabe aquela história da Cama de Baleia, que existe embaixo do altar de alguma igreja por aí, conforme a lenda? Pois é, ela já contou, inclusive entrou até para um livro. E ela não para por aí, são muitas histórias.
Carlê é uma das guardiãs das memórias, ‘segredos revelados’ e narrativas que ganham vida quando recontadas. É nesse encontro entre a tradição oral, a pesquisa e a paixão pela transformação social que se constrói a trajetória dela. Além de contadora de histórias, é articuladora cultural, produtora, técnica em eventos e graduada em Licenciatura em História pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Seu trabalho de término de curso foi pesquisar sobre o teatro de mamulengo Casimiro Coco e outros personagens.

Trajetória
Integrante da Rede de Contadores de Histórias do Ceará, sua atuação efervescente perpassa as regiões Centro-Sul, Vale do Salgado e Cariri Cearense. “A arte narrativa não é apenas sobre contar uma história, mas sobre criar uma ponte de afeto e escuta. Quando sentamos para ouvir ou narrar, estamos ocupando o espaço público com humanidade,” pontua a artista.
A carreira de Carlê é marcada pela força do trabalho coletivo. Ao longo dos anos, integrou formações artísticas de peso na região, como a Associação Ortaet (2007–2016), o Grupo de Teatro Peripécias (Juazeiro do Norte, 2013), o grupo audiovisual Tentame (2017), o Coletivo Cerebral (2018), o grupo parafolclórico Caretas do Alto da Bonita (2019–2020) e os Narradores Cariri (2020–2022).
Dessas vivências nasceram projetos que uniram arte, intervenção social e literatura. Entre eles, a pesquisa sobre violência contra a mulher que resultou no espetáculo “Silêncio por um minuto” (Cia Ortaet), a publicação do livro “Rompendo o Cerco EducAção por toda parte” (2020) — no qual relata a marcante experiência do “Ocupa Estação”, ação realizada na antiga estação ferroviária de Iguatu em 2016 —, além do projeto “Poste Poesia”, focado na fruição da leitura em locais públicos.
Em 2020, junto aos Narradores Cariri, publicou o livro “Entrou pela porta, saiu pelo canivete! “O senhor meu rei mandou que conte sete”, registrando a história tradicional “A cama da baleia”. Sua trajetória também está marcada na websérie “Sertão Delas” (2021), de Alexia Duarte, e no podcast “Bocado de Histórias” (2020).
Atualmente, quem anda por Iguatu encontra Carlê na linha de frente do incentivo ao livro e à leitura. Na Biblioteca Pública de Iguatu, atua como mediadora cultural comandando sessões de cineclube, lançamentos de livros e contação de histórias. No palco e nas praças, circula com os projetos “Histórias Pra Rei Dormir!”, “Brincando de Caretas” e “Histórias que o vento soprou e outras lendas de pé de calçada”.

Desde 2023, o projeto “Brincando de Caretas” vem resgatando a tradição da Semana Santa na região, oferecendo oficinas de confecção de máscaras de papelão e sessões de contação de histórias voltadas ao universo dos careta, inclusive trabalho de pesquisa que integram obras literárias escritas por Almir Mota, Júlia Barros, e outros tantos escritores e escritoras que contam o trabalho de pesquisa da artista iguatuense.
Outro marco recente de sua entrega à literatura local é a participação ativa na pesquisa, colaboração e contação de histórias do livro “A Lagoa da Bastiana”, também de Almir Mota, que será lançado neste mês de setembro. “Trazer a história da Lagoa de Bastiana para as novas gerações é reconectar a cidade com a sua própria identidade e com os mitos que nos constituem, além do foco que é a preservação ambiental que é tão necessária para aquele ambiente”, ressalta Carlê.
Na produção executiva, Carlê tem muitas participações entre essas, a Programação dos 60 anos da Biblioteca Pública de Iguatu (2023), Festival Tamarineiras em Icó (2020–2026), Mostra Nacional de Contadores de Histórias Nas Terras do Cariri (2020/2021), Iguatu Rock Band Festival (2016 e 2017) e o Dia do Teatro e do Circo (2006–2018). Ela atuou também entre 2013 a 2018 no Festival Internacional de Música Erudita Eleazar de Carvalho (Fortaleza) e no FIMC – Festival Internacional de Máscaras do Cariri (Crato, 2018).
O audiovisual e as políticas públicas também marcam a trajetória dessa contadora de histórias na produção executiva da websérie “Sertão Delas” e do projeto de salas de exibição de cinema “Cine Bastiana”, além de organizar os seminários de formação e pesquisa de políticas públicas da Rede de Contadores de Histórias do Ceará. “Mulheres que ensaboam palavras”: A escuta sensível do sertão, é um trabalho recente. Entre todas as frentes de trabalho, a pesquisa e criação em cultura popular intitulada “Mulheres que ensaboam palavras” sintetiza a essência poética do trabalho de Carlê.
processo contínuo
Contar história, despertar o interesse, a curiosidade e prender a atenção das pessoas, principalmente de acordo com Carlê é um processo contínuo de escuta, recolha e transcriação das memórias e histórias vivenciadas.
Histórias como a de Carlê Rodrigues reforçam a razão de existir da série especial “Luz, Câmera, Minha História”. A iniciativa busca jogar luz sobre os produtores, artistas, artesãos, empreendedores e agitadores culturais que movimentam a economia criativa de Iguatu e região. Mais do que divulgar eventos, a série humaniza os processos artísticos, mostrando o rosto, o suor e a dedicação de quem faz a cultura acontecer no dia a dia, muitas vezes nos bastidores, garantindo que o patrimônio imaterial e a identidade nordestina sigam vivos e pulsem constantemente.
Você pode acessar o material completo em vídeo nas redes sociais do Jornal A Praça.



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