Após repercussão nacional do caso Lito Souza, empresária de Iguatu revela que mãe enfrenta o mesmo diagnóstico raro

05/09/2026

 

 

 

A repercussão nacional do caso de Lito Souza, influenciador, mecânico de aeronaves e ex-piloto que revelou ter sido diagnosticado com a Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), fez uma família de Iguatu revelar a realidade que enfrenta desde o ano passado. A empreendedora da marca ‘J’adore’, Maria das Graças Palácio Sobreira (Maninha), de 63 anos, também recebeu o diagnóstico de DCJ esporádica e é acompanhada por profissionais de saúde em Iguatu e Fortaleza.

Os primeiros sintomas surgiram em setembro de 2025. Desde então, a rotina da família mudou completamente. Segundo a filha, a empresária Valéria Sobreira Palácio, a mãe sempre foi responsável pela administração de diversas atividades familiares, desde pagamentos e questões bancárias até a organização de negócios e compromissos dos cinco filhos. Com o avanço da doença, essas responsabilidades precisaram ser assumidas pelos demais integrantes da família.

“Minha mãe resolvia tudo. Pagamentos, banco, administração da família. Nós somos cinco filhos e praticamente todas as demandas passavam por ela. O impacto foi devastador e exigiu uma reorganização completa da nossa rotina”, contou Valéria, que também relatou a necessidade de acompanhamento com diferentes profissionais e terapias.

Raridade e dúvida

O caso ganhou nova dimensão após a divulgação do diagnóstico de Lito Souza. Valéria recebeu mensagens e comentários de pessoas que relatavam conhecer familiares que também tiveram a doença. A situação despertou nela uma dúvida sobre a quantidade de registros existentes no país e, principalmente, sobre a atualização dessas informações.

Me assustou a quantidade de comentários. A doença continua sendo considerada rara, mas muitas pessoas relatavam casos próximos. Isso me fez questionar por que os dados divulgados pelo Ministério da Saúde não são atualizados desde 2021”, afirmou.

Em Iguatu, segundo Valéria, a família também tomou conhecimento de outros relatos envolvendo pessoas com diagnóstico semelhante. Ela afirma, no entanto, que não dispõe de levantamento oficial desses casos. Um dos médicos que acompanhou sua mãe chegou a procurar a família para saber se havia conhecimento de outras pessoas com o mesmo diagnóstico.

A empresária também questiona a atualização das informações referentes ao caso de sua mãe. Segundo ela, embora o diagnóstico tenha sido confirmado em Fortaleza, a informação ainda aparecia como caso suspeito nos registros que a família consultou junto ao município. Ela afirma que não recebeu contato do Ministério da Saúde para esclarecimentos sobre a situação.

Sem resposta

A reportagem procurou a Secretaria Municipal de Saúde de Iguatu para saber se o caso de Maria das Graças já foi oficialmente atualizado nos sistemas de vigilância, como ocorre o fluxo de notificação e se existem outros registros confirmados de DCJ no município. Até o fechamento desta matéria, não houve resposta.

Evolução rápida

O neurocirurgião iguatuense Saulo Teixeira explica que a Doença de Creutzfeldt-Jakob é uma enfermidade causada pela ação de príons, proteínas anormais que provocam alterações progressivas no sistema nervoso central. Por ser uma doença rara, o diagnóstico exige investigação clínica e a realização de diferentes exames.

Segundo o especialista, entre os procedimentos utilizados estão a ressonância magnética do cérebro, exames da coluna cervical, eletroencefalograma e análise do líquor. Esses exames também ajudam a descartar outras doenças que podem apresentar sintomas semelhantes.

Dr. Saulo ressalta que a DCJ é uma doença de notificação compulsória e que os casos são acompanhados dentro do sistema de vigilância epidemiológica. No Ceará, o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen), em Fortaleza, participa do processo de investigação laboratorial e da comunicação das informações aos órgãos de saúde.

Apesar dos relatos de Valéria sobre outros casos ligados a pessoas de Iguatu, o médico alerta que a existência de mais de um diagnóstico em uma determinada cidade não permite, por si só, afirmar que existe uma concentração da doença ou uma relação entre os pacientes. Para chegar a essa conclusão, seria necessário analisar os casos de forma epidemiológica e verificar informações como diagnóstico, classificação da doença, local de residência e possíveis fatores em comum.

 

Uma família em busca de respostas

Maria das Graças permanece sendo acompanhada pela família e por profissionais de saúde. Para os filhos, além das dúvidas sobre a doença e sobre os registros oficiais, o principal desafio é aproveitar o tempo ao lado da mãe e adaptar a rotina às necessidades provocadas pelo diagnóstico.

Enquanto procura informações sobre a doença e acompanha a evolução do quadro da mãe, Valéria afirma que decidiu tornar a história pública também para ajudar outras famílias que possam passar por situação semelhante.

Para ela, a repercussão nacional do caso de Lito Souza fez com que uma doença até então desconhecida pela maioria das pessoas passasse a ser discutida publicamente. “Há seis meses quase ninguém conhecia essa doença. Hoje, por causa da repercussão, as pessoas passaram a ouvir falar dela e a buscar informações”, afirmou.

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