Você sabia que a expressão “latino” é uma invenção europeia e que sua origem está diretamente ligada a Roma, à igreja católica e à monarquia?
Pois deixa eu te dizer que quem a inventou foram os franceses.
Na segunda metade no século XIX, os franceses buscavam uma estratégia comercial que os aproximasse dos países de língua portuguesa e espanhola nas Américas; e, para isso, criaram uma “comunidade” latina. Bem, a grosso modo, foi mais ou menos assim que surgiu essa ideia de latinidade que conhecemos hoje. No começo até que colou, mas era pouco. Não nos resumiríamos, em termos étnicos, a idiomas.
E o nome América, de onde vem? Trata-se de uma referência ao navegador italiano Américo Vespúcio.
Ora! A América Latina existe de fato ou é apenas mais uma forma velada de colonização?
Pois bem! É exatamente nesse ponto que pessoas como o astro porto-riquenho Bad Bunny aparecem.
Ele, assim como milhares de outros latino-americanos, sabe que somos muito mais do que um povo que fala uma língua latina. Muito além disso, nós somos geografia, somos continente, somos gente que, muito antes de qualquer “descobrimento”, já éramos donos de nossa própria identidade. Temos nossa própria música, nossa própria dança, nossa própria culinária, nossa própria arte; somos exemplos de resiliência e somos, também, resistência política. Não viemos dos europeus. O nosso povo vem do negro, do africano que, demograficamente falando, por sua vez, vem de um processo histórico terrível que foi o sistema transatlântico de escravizados. Sem falar de quem já estava aqui desde o início, ou seja, dos povos originários. Quando falamos de países como Guatemala, México, Peru, Equador, Bolívia dentre outros, sabemos que, ainda hoje, mais 60% de suas populações é de origem indígena. Sofremos juntos as dores uma colonização compartilhada, por isso não aceitamos que nos reconheçam apenas pelo nosso idioma, exigimos que sejamos reconhecidos pela nossa cultura. Juntos somos a CULTURA LATINO-AMERICANA.
Portanto, resta claro, que o show do Bad Bunny, no intervalo do Super Bowl LX, não foi somente uma simples apresentação artística. Tratou-se de um grito ao mundo de que a América Latina existe, de que temos a nossa própria identidade e de que tanto as nossas belezas como os nossos problemas são nossos e de mais ninguém.
Mas nem todos que compõem o resto do mundo compreendem e respeitam esse árduo processo de manutenção da nossa identidade, sobretudo os EUA, onde o termo latino é usado frequentemente como uma classificação sociorracial para perseguição de imigrantes latino-americanos, incluindo os brasileiros.
A expressão América Latina é nossa e, ao longo do tempo, precisou ser resgatada, e esse resgate ganhou força com a criação da Organização das Nações Unidas – ONU, que criou a Comissão Econômica Para a América Latina e o Caribe – CEPAL. Então a nomenclatura estava fortalecida; existia de fato e de Direito uma América Latina do povo que verdadeiramente a construiu.
Em 1982, quando o escritor colombiano Gabriel García Márquez ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, em seu discurso intitulado “A Solidão da América Latina” ele nos lembrou que “A América Latina não quer, nem tem qualquer razão para querer, ser massa de manobra sem vontade própria; nem é meramente um pensamento desejoso que sua busca por independência e originalidade deva se tornar uma aspiração do Ocidente. No entanto, a expansão marítima que estreitou essa distância entre nossas Américas e a Europa parece, ao contrário, ter acentuado nosso distanciamento cultural”. Seu discurso resgata, ali, a expressão latino-americano mais uma vez, uma vez que fez com que alguns países, sobretudo os do norte global, olhassem para a América Latina e entendessem o motivo dessa solidão imposta.
O tempo passa e nos mostra que a resiliência é nossa sina, que a nossa luta por reconhecimento e respeito à nossa identidade não tem fim.
Eis que surge o, até então pouco conhecido no Brasil, Bad Bunny, que, em um show histórico, decide por resgatar mais uma vez a expressão América Latina, mostrando ao mundo “as dores e as delícias” de sermos latino-americanos.
Ele, verdadeiramente, nos provou, por meio de sua arte, que juntos somos a América.
Bom final de semana!
“Só há uma coisa mais poderosa do que o ódio, o amor”. Bad Bunny
Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

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