Uma descoberta científica feita em parte no Instituto Federal do Ceará – IFCE – Iguatu acaba de ganhar destaque em uma das revistas internacionais mais prestigiadas da área de neurociências. A pesquisa, publicada na ACS Chemical Neuroscience (Qualis A2), investigou o potencial antidepressivo e neuroprotetor do óleo essencial da planta Lippia grata, conhecida popularmente como alecrim-da-chapada, espécie nativa da caatinga e coletada no próprio município de Iguatu.
O estudo comprovou que o óleo e seu principal componente químico, o timol, apresentaram efeito antidepressivo sem causar sedação, além de ação antioxidante e neuroprotetora, o que abre perspectivas para o desenvolvimento de novos tratamentos contra doenças neurológicas como depressão, Alzheimer, Parkinson e glaucoma.
A pesquisa foi realizada por uma ampla rede de instituições cearenses e internacionais, com o trabalho do pesquisador Luiz Wemmensson G. Moura, primeiro autor do trabalho publicado, com coordenação do professor Dr. Francisco Ernani Magalhães, da Universidade Estadual do Ceará (UECE – campus Tauá), e contou com participação decisiva dos docentes do IFCE – Iguatu, professor Stênio Freitas Félix e professora Erlândia Alves Magalhães Queiroz, líderes do Grupo de Pesquisa em Química de Produtos Naturais e Atividades Biológicas do Semiárido (QPNBioS).

No sertão
Segundo o professor Stênio Freitas, doutor em Biotecnologia de Recursos Naturais, a motivação para o estudo surgiu do potencial medicinal já conhecido do alecrim-da-chapada. “Essa planta é endêmica do Semiárido e amplamente usada na medicina popular. Nossos primeiros estudos, realizados aqui em Iguatu, mostraram que o óleo essencial apresentava propriedades larvicidas contra o mosquito da dengue. A partir daí, percebemos que havia muito mais a ser explorado”, explica.
A descoberta, segundo ele, tem um valor simbólico e científico especial por ter sido conduzida em parte dentro do IFCE-Iguatu. “É uma demonstração clara de que o interior do Ceará produz ciência de ponta, capaz de alcançar reconhecimento internacional. Mostra que o Semiárido, além de sua riqueza natural e cultural, é também um laboratório vivo de inovação e conhecimento”, destaca o professor.
Nos experimentos realizados, os pesquisadores testaram o óleo essencial e o timol em modelos biológicos com peixes-zebra (Danio rerio), espécie amplamente usada em estudos de neurofarmacologia. Os resultados mostraram efeito antidepressivo sem toxicidade e sem causar sonolência, algo raro em substâncias com ação sobre o sistema nervoso.
Além disso, análises laboratoriais revelaram o poder antioxidante e a capacidade de inibir a enzima acetilcolinesterase (AChE), envolvida em doenças degenerativas como o Alzheimer. “O mais impressionante foi ver a convergência dos resultados obtidos em diferentes tipos de testes – biológicos, químicos e computacionais – confirmando que o alecrim-da-chapada possui compostos com forte potencial terapêutico”, explica Stênio.

IFCE
O IFCE teve papel decisivo nas etapas iniciais da pesquisa, realizando a coleta e identificação botânica da planta, os primeiros testes experimentais e a análise da composição química do óleo essencial. “Esses dados iniciais foram a base que possibilitou o avanço dos estudos e a colaboração com outras instituições do Ceará e do exterior”, reforça o pesquisador.
Para o professor Stênio, a conquista reforça o papel de Iguatu como centro emergente de produção científica no interior do Estado. “Temos mostrado que é possível fazer ciência de alto nível fora dos grandes centros urbanos. O IFCE de Iguatu está se consolidando como um polo de pesquisa que valoriza os recursos naturais do Semiárido e forma novas gerações de cientistas comprometidos com o desenvolvimento regional”, afirma.
Inspiração e futuro
O pesquisador acredita que a descoberta também tem potencial para inspirar estudantes e jovens da região. “Queremos que os alunos do IFCE e os jovens de Iguatu vejam que é possível fazer ciência de impacto aqui mesmo, perto de casa. A curiosidade e o desejo de aprender são os primeiros passos para qualquer descoberta”, diz.
Ele também reforça a importância de aproximar a comunidade da ciência. “Quando a população compreende o que é pesquisado em sua própria cidade, ela passa a reconhecer o valor do conhecimento como ferramenta de transformação social. A ciência feita em Iguatu é também uma forma de valorizar a identidade do nosso território e de acreditar que o Sertão pode ser protagonista da inovação”, completa.
O grupo de pesquisa já planeja novas etapas, com testes farmacológicos e toxicológicos mais avançados, isolamento de compostos bioativos e possíveis ensaios clínicos. A expectativa é que, com apoio de agências de fomento e parcerias nacionais e internacionais, os resultados possam futuramente contribuir para o desenvolvimento de medicamentos naturais e sustentáveis.
“Estamos apenas começando a compreender o potencial do alecrim-da-chapada. Cada descoberta reforça a importância de proteger nossa biodiversidade e de investir em ciência feita no interior. Iguatu tem um papel estratégico nesse cenário – é aqui que o conhecimento sobre o Semiárido se transforma em inovação com impacto global”, finaliza o professor Stênio Freitas.



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