
Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
Junho chega e o coração do Nordeste bate diferente.
É como se o vento soprasse os acordes mais melódicos da sanfona pelos alpendres, como se a lua ganhasse um brilho mais amarelado sobre os terreiros de barro batido, como se cada casa sertaneja voltasse a conversar com a infância.
É tempo de São João.
A maior manifestação cultural nordestina não cabe apenas nos palcos, nas bandeirolas ou nas multidões. Ela mora também na memória afetiva do nosso povo. Mora no cheiro da lenha queimando na fogueira acesa diante das casas simples. Mora no milho assando devagar, no brilho dos fogos ao longe, no vestido rodado da quadrilha e no chapéu de palha ajeitado com orgulho diante do espelho.
Junho é o mês em que o Nordeste inteiro parece rezar cantando.
E, no centro dessa festa sagrada e popular, existe um homem eterno chamado Luiz Gonzaga. Foi ele quem transformou o sertão em melodia universal. Gonzagão pegou a alma nordestina pelas mãos e a apresentou ao Brasil através da sanfona, da zabumba e do triângulo. Sua voz carregava cheiro de terra molhada, gosto de milho verde e som de chinelo riscando o terreiro.
Quando Luiz Gonzaga cantava o São João, não era apenas música. Era uma fotografia 3×4 que ele carregava no bolso. Era um documento sentimental de um povo inteiro.
E o mais bonito é perceber que o velho Lua não caminhou sozinho. Depois dele vieram tantos outros guardiões dessa herança luminosa: Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, Santanna, Flávio José, Luiz Fidelis, Elba Ramalho, Alceu Valença, Jorge de Altinho e tantos outros artistas que mantiveram acesa essa chama cultural que ilumina o Nordeste há gerações.
São artistas que entenderam que o São João não é apenas entretenimento. É identidade. É pertencimento. É memória viva.
Quem nasceu no interior sabe: existia algo sagrado nas noites juninas.
As fogueirinhas acesas nos terreiros pareciam estrelas que desciam do céu para conversar com as famílias. Os balões riscavam a madrugada silenciosa enquanto as crianças apontavam para o alto com os olhos cheios de encanto. A igrejinha humilde de Suassurana ficava iluminada, cheia de gente simples vestindo suas melhores roupas para as novenas. Vestidos cuidadosamente passados, sapatos guardados para ocasiões especiais, perfumes usados gota por gota apenas nas noites importantes.
E depois da reza vinha a festa.
A sanfona começava a chorar bonito e ninguém ficava parado. Os casais dançavam agarradinhos, os idosos sorriam lembrando do tempo da juventude e as crianças corriam entre as bandeirinhas coloridas como se o mundo inteiro coubesse naquele pequeno arraial.
Havia também a fé.
Ah, a fé nordestina nas madrugadas de junho…
Gente acordando de madrugada para acompanhar as procissões, segurando velas acesas ainda sob o friozinho da manhã. Rostos cansados, mas iluminados de esperança. Orações feitas baixinho. Promessas. Gratidão. A crença sincera de que São João escutava cada coração que caminhava pelas ruas ainda silenciosas do sertão.
Talvez seja por isso que o São João emocione tanto.
Porque ele não é apenas uma festa.
É um reencontro.
Reencontro com a família reunida no terreiro.
Com os amigos de infância.
Com os amores antigos.
Com a fé aprendida com os avós.
Com a música que atravessa gerações.
Com o orgulho de ser nordestino.
Junho transforma o Nordeste numa grande casa colorida e iluminada.
E enquanto existir uma sanfona tocando numa praça, uma quadrilha dançando num povoado humilde, uma fogueira acesa diante de uma casa sertaneja e alguém cantando as canções de Luiz Gonzaga sob o céu estrelado, o coração cultural do Nordeste continuará vivo, forte e bonito.
Porque o São João não passa.
Ele permanece aceso dentro da alma do nosso povo.

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