Prof. Me. Matheus Lôbo Cavalcante*
Há um fenômeno silencioso e perigosamente sedutor infiltrando-se nas estruturas da educação brasileira: a ascensão de indivíduos que se apresentam como “professores” sem terem passado pelo caminho mais elementar da docência: a fricção diária com uma sala de aula real. São vendedores de atalhos tentando ocupar o lugar de quem dedicou anos à formação pedagógica, ao rigor metodológico e ao compromisso ético com o conhecimento. Vê-se a usurpação simbólica do magistério por alguns influenciadores digitais, uma engrenagem corrosiva que substitui processos formativos densos por esquinas sedutoras e soluções imediatistas.
Nesse contexto, a chamada “coachização” opera como uma caricatura do ato educativo, pois uma parcela de influenciadores digitais reduz complexidade a slogans, transforma metodologias em performances e converte estudo em espetáculo. Trata-se de um fenômeno sustentado por discursos simplificados, emocionalizados e facilmente comercializáveis, alterando a própria lógica da autoridade pedagógica, sem chão escolar, sem propósito e sem técnica com a complexidade do ensinar. Eles vendem fórmulas e receitas proféticas, enquanto lucram com a ansiedade e com os sonhos alheios.
É claro, prezado(a) leitor(a), que a presença de influenciadores no debate público, por si só, não constitui um problema. O equívoco reside na crescente confusão entre popularidade e competência. O risco aqui é profundo: quando a performance tenta ocupar o lugar da pedagogia, o país confunde espetáculo com educação e esquece que saberes exigem tempo, método e responsabilidade. Institui-se, assim, uma autoridade sustentada mais pelo brilho do cenário do que pela consistência das ideias. Diante disso, cresce uma idolatria do raso que empobrece o debate educacional e desloca os verdadeiros protagonistas da formação.
Em uma cultura viciada na rapidez e deslumbrada com gurus de ocasião (os “ídolos de areia”, assim chamados porque não estão sedimentados na formação intelectual, desmancham-se facilmente na primeira ventania da vida real), o docente é quem ainda cultiva a profundidade e lembra que pensar não é entretenimento: é, antes de tudo, responsabilidade social. É preciso lembrar que educação não é vitrine! No labor de instigar a refletir, ser professor neste país é um ato de resistência. Na sala de aula, são os mestres do saber, os professores de verdade, que apontam as fissuras que muitos preferem ignorar. São eles que inspiram, orientam e transformam. Eis a influência que importa: aquela que transforma sem vender ilusões.
Talvez aqui esteja o ponto mais desconfortável: o colapso cultural a que se assiste revela um diagnóstico social. Ele apresenta a dificuldade crônica de muitos em diferenciar densidade intelectual de performances vazias, uma dinâmica que revela o risco de transformar ensino em entretenimento, cátedra em palco. Enquanto não enfrentarmos essa ferida aberta, continuaremos celebrando esses “ídolos de areia” e silenciando justamente aqueles que, há décadas, dedicam-se a ensinar o país a construir alicerces.
Apesar de tudo, os professores, âncoras de formação permanente (porque dão firmeza, criam estabilidade cognitiva) seguirão resistentes, insistentes, teimosos, não apenas transmitindo conteúdos, mas devolvendo ao país a chance de pensar antes de ceder às seduções do engano, porque, no fundo, a educação só se sustenta onde há raízes, e raiz nenhuma se faz à sombra do imediato.
* Docente dos cursos de Direito da Urca/Campus Iguatu e da UniFIC e professor de Redação da Escola Modelo de Iguatu; Bacharel em Direito (Urca); Licenciado em Letras-Língua Portuguesa (Estácio) e mestre pela UFCG.

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