
O médico psiquiatra Eduardo Vieira fala aos leitores sobre a campanha do Setembro Amarelo e as relações que envolvem pacientes, tratamento, preconceito e automedicação
A Praça – Ainda existe estigma muito forte de falar sobre doença mental?
Dr. Eduardo – Infelizmente, sim, mas percebo que esse estigma vem diminuindo ao longo dos anos. Atualmente muitos pacientes, após o término das consultas, pedem para tirar uma foto comigo e registam em suas redes sociais. Eu acho isso fantástico, pois demonstra uma naturalidade em abordar o tema e estimula outras pessoas a procurar ajuda. Cuidar da saúde passou a ser um objetivo compartilhado e a saúde mental é um pilar importante no bem-estar global do indivíduo.
A Praça – A automedicação pode levar o paciente a algum quadro depressivo?
Dr. Eduardo – O uso de medicações sem acompanhamento médico é uma prática comum e pode trazer vários danos à saúde. É frequentemente motivada por recomendações de familiares, amigos ou informações não confiáveis de internet. Não diria que essa prática tenha relação com a depressão, mas pode mascarar doenças, atrapalhar o raciocínio médico na elaboração de diagnósticos e até contribuir com aumento do uso de substancias psicoativas (drogas). Algumas pessoas podem por exemplo usar bebidas alcoólicas a noite para ajudar no sono ou usar Cannabis para aliviar sintomas de ansiedade, porém, além de não tratar a doença de base, esses pacientes podem se tornar dependentes dessas substancias.
A Praça – As pessoas ainda têm vergonha de falar sobre suas doenças, transtornos ou situações de violência que viveram?
Dr. Eduardo – Falar das nossas feridas nunca é fácil. Muitas vezes elas carregam um peso emocional muito intenso e a tendência é a esquiva. Porém, a não abordagem e tratamento dessas dores/doenças emocionais acarreta um sofrimento psíquico maior uma vez que podem piorar ao longo do tempo. O ideal é que as pessoas que apresentem sintomas de cunho psíquico e emocional procurem um atendimento especializado com médicos, psicólogos e outros profissionais da saúde que englobam a equipe multidisciplinar.
A Praça – Quais são as doenças de cunho psíquico que mais acometem as pessoas?
Dr. Eduardo – As patologias mais prevalentes na nossa prática clínica são depressão, ansiedade, transtorno bipolar, autismo, esquizofrenia, TOC, TDAH e dependência química.
A Praça – Existe uma causa específica para alguém que tenta contra sua própria vida?
Dr. Eduardo – Ao contrário do que muitos pensam, não existe uma “causa” para um comportamento suicida. O que existem são fatores de risco e fatores de proteção para esse comportamento. Os principais fatores de risco são: tentativas anteriores de suicídio, presença de doenças psiquiátricas (especialmente depressão, transtorno bipolar e uso abusivo de álcool e drogas), desesperança, isolamento social, experiências de abuso e falta de rede de apoio. Os principais fatores de proteção são: vínculos afetivos sólidos, acesso a tratamento adequado, religiosidade/espiritualidade, práticas de lazer, rede de apoio familiar e habilidades de resolução de problemas.
A Praça – Por que esse tema ainda é tão importante e ao mesmo tempo cercado de tabu?
Dr. Eduardo – Infelizmente, o suicídio ainda é tratado como um assunto proibido em muitas famílias e comunidades. O tabu gera silêncio, e o silêncio impede a busca por ajuda. É fundamental falar sobre o tema de forma responsável, sem sensacionalismo, mas com abertura e acolhimento, porque somente assim conseguimos salvar vidas.

A Praça – Como a difusão do conhecimento ajuda a diminuir o estigma?
Dr. Eduardo – Informação de qualidade é a principal arma contra o preconceito. Quando a população entende que o suicídio não é “falta de fé” ou “fraqueza de caráter”, mas sim resultado de múltiplos fatores, muitas vezes relacionados a doenças psiquiátricas tratáveis, o estigma diminui. Quanto mais falamos de saúde mental com clareza e empatia, mais fácil se torna para alguém procurar ajuda.
A Praça – Quais são os mitos que envolvem os atos da violência suicida?
Dr. Eduardo – “Quem fala, não faz”. Isso é absolutamente falso. A maioria das pessoas que tira a própria vida deu sinais verbais ou comportamentais claros. Falar sobre o assunto é, na verdade, um pedido de ajuda. “Suicídio acontece de repente, sem aviso”. Na maioria dos casos há sinais prévios. “Perguntar sobre suicídio pode induzir a pessoa a tentar”. Pelo contrário, perguntar com cuidado pode trazer alívio e abrir espaço para ajuda.
A Praça – Para encerrar, qual mensagem o senhor deixaria para os leitores neste Setembro Amarelo?
Dr. Eduardo – Eu diria que pedir ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza. A vida sempre pode ganhar novos significados, mesmo nos momentos mais difíceis. O suicídio pode ser prevenido, e todos nós temos um papel nessa prevenção, seja apoiando alguém próximo, seja buscando ajuda profissional quando necessário. Valorizar a vida é um compromisso coletivo.



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