Entrevista – Dra. Isla Miranda Médica pneumologista

26/09/2025

A médica especialista em pneumologia, Isla Miranda, fala em entrevista ao A Praça sobre as doenças que mais afetam os pulmões, as principais infecções por vírus, bactérias ou herança genética, e porque pacientes que tiveram Covid com pulmões afetados estão voltando a sofrer com os mesmos problemas

A Praça – Quais são as doenças que mais afetam os pulmões?

Dra. Isla – O pulmão pode ser acometido por doenças infecciosas, inflamatórias, tromboembólicas e neoplásicas, dentre outras. Dentre as doenças infecciosas, as mais comuns são pneumonia, que pode ser bacteriana ou viral, e tuberculose pulmonar, doença muito prevalente em nosso meio. Outras infecções, como micoses pulmonares, também podem acontecer, merecendo destaque aqui a coccidiodomicose, também como conhecida como micose do caçador de tatu. Dentre as doenças inflamatórias crônicas, as mais prevalentes são asma brônquica e DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica), geralmente associadas ao tabagismo atual ou prévio. Outras condições como tromboembolismo pulmonar, neoplasia ou câncer de pulmão e doenças pulmonares intersticiais (fibrosantes ou não) também podem acontecer, porém não estão entre as patologias pulmonares mais comuns.

A Praça – As causas são as infecções virais, bactérias ou herança genética?

Dra. Isla – Cada patologia tem sua causa específica e a genética influencia na gênese de algumas doenças pulmonares, como asma brônquica e algumas doenças intersticiais, por exemplo.

A Praça – A pneumonia ainda é uma doença que preocupa muito?

Dra. Isla – Sim, pois pode evoluir de forma grave e fatal em um curto período de tempo, mesmo em pacientes jovens e sem comorbidades. Vale ressaltar, entretanto, que apesar do potencial de gravidade da doença, a imensa maioria dos pacientes com pneumonia comunitária irá evoluir para cura, sem maiores complicações. O diagnóstico precoce e a instituição da terapêutica apropriada em tempo hábil, além do controle de comorbidades, influenciam diretamente na evolução do quadro.

A Praça – Pessoas que tiveram Covid-19 e foram afetadas no sistema respiratório estão retornando ao serviço de saúde com problemas semelhantes aos da pandemia, do pulmão com aspecto de ‘rigidez’, ‘vidro fosco’ e limitações na respiração. Quais as explicações para isso? Outras sequelas da Covid?

Dra. Isla – Pacientes que tiveram Covid-19 grave, com importante envolvimento do tecido pulmonar e síndrome respiratória aguda grave, podem sim apresentar sequelas da doença, especialmente se houve necessidade do uso de ventilação mecânica por tempo prolongado. Vale ressaltar, entretanto, que não é porque o paciente teve Covid que todas as queixas respiratórias apresentadas (ou alterações tomográficas) sejam justificadas como sequela da doença, devendo cada casa ser analisado individualmente.

A Praça – Depois que o pulmão evolui para o estado de ‘rigidez’ não volta mais ao normal de antes?

Dra. Isla – Quando há envolvimento fibrosante do pulmão, não há reversibilidade do quadro, o que não significa dizer que não haja medida terapêutica para aliviar o sintoma do paciente. A fisioterapia respiratória com reabilitação pulmonar tem papel primordial no tratamento destes casos.

A Praça – Quais são as causas mais prováveis para este efeito?

Dra. Isla – Se estivermos falando de doenças pulmonares intersticiais fibrosantes, as causas são variadas, podendo ser: idiopática; secundária a doenças autoimunes/colagenoses, como lúpus, por exemplo; secundária à inalação de alguns agentes específicos, como mofo e pena de pássaro, dentre outros.

A Praça – Existe uma faixa etária específica da vida para as doenças respiratórias se manifestarem?

Dra. Isla – Sim, cada doença pulmonar tem um período esperado para se manifestar, sendo algumas mais prevalentes na infância e outras mais prevalentes em adultos / idosos.

A Praça – Quem são os maiores inimigos dos pacientes que têm doenças pulmonares?

Dra. Isla – O cigarro de qualquer natureza, os poluentes e agressores respiratórios inalados e as variações climáticas.

A Praça – O câncer de pulmão está entre as doenças de maior impacto social. Nesses casos, quais as chances do paciente?

Dra. Isla – O câncer de pulmão é uma doença heterogênea e o prognóstico está diretamente ligado ao tipo histopatológico da doença e a fase em que a doença é diagnosticada – quanto mais precoce o diagnóstico, maiores as chances de cura. Pacientes tabagistas de longa data devem, preferencialmente, fazer rastreio do câncer de pulmão anualmente.

A Praça – Os cigarros eletrônicos têm um efeito nocivo no sistema respiratório das pessoas, com muito menos tempo do que o cigarro tradicional. Isso faz acelerar as doenças também?

Dra. Isla – O cigarro eletrônico é extremamente maléfico ao organismo e notadamente à saúde respiratória, podendo agravar doenças que o paciente já tenha, como asma, e causar novos e graves problemas de saúde que podem, inclusive, tirar a vida do doente.

A Praça – As mudanças climáticas, as altas temperaturas, exposição aleatória a poeira, pó, pelos de animais e outras substâncias são fatores influentes no agravamento dos quadros infecto-respiratórios?

Dra. Isla – Sim, especialmente doenças alérgicas, como asma brônquica e rinite alérgica, sendo o controle ambiental peça chave para controle destas condições.

A Praça – Quais são os meios mais viáveis para prevenir as doenças infecto-respiratórias?

Dra. Isla – Vacinação, controle ambiental (cuidados com o ambiente) e atividade física regular, além de obviamente nunca fumar.

A Praça – Quais os impactos que as atividades físicas podem gerar na rotina do paciente com doenças infecto-respiratórias?

Dra. Isla – A atividade física, quando bem acompanhada, auxilia no processo de reabilitação pulmonar e fortalecimento da respiração.

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