Nesta edição o A Praça traz entrevista com a médica Laís Bandeira, especialista em Mastologia falando aos leitores, principalmente mulheres sobre a campanha nacional ‘Outubro Rosa’, voltada para prevenção do câncer de mama, tratamento e cura
A Praça – Doutora Laís, por que o ‘Outubro Rosa’ ainda é tão importante em 2026? Os números de casos na nossa região ainda são altos? O que mais mudou no tratamento do câncer de mama nos últimos 5 anos?
Dra. Laís – Primeiramente queria agradecer pelo convite e pela oportunidade de realizar promoção em saúde por meio dessa entrevista. O Outubro Rosa é uma campanha mundial, que fala sobre a importância do autocuidado e da saúde da mulher, alertando sobre a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama e, mais recentemente, também do câncer do colo do útero. Essa campanha é de extrema importância pois o câncer de mama é o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres em nosso país (representando cerca de 30% dos tumores femininos, excluindo os de pele não melanoma) e o segundo maior na população geral. Segundo o INCA (Instituto Nacional de Câncer), nesse triênio, de 2026 a 2028, são estimados 78.610 novos casos por ano no Brasil e 3.250 novos casos por ano no Ceará. Nos últimos anos, os tratamentos para o câncer de mama mudaram muito na melhora das taxas de sobrevida após a doença e na individualização de cada paciente para definir o tratamento de forma específica.
A Praça – Muita gente confunde autoexame com prevenção. O que realmente previne e o que ajuda a detectar cedo a doença?
Dra. Laís – O que realmente ajuda na detecção precoce da doença é a realização de rastreamento anual com exames, sendo o principal a mamografia. Quanto antes a descoberta da doença, maiores são as taxas de sucesso no tratamento, podendo chegar até a mais de 95% de chance de cura. O que realmente previne o câncer de mama é a prática de hábitos saudáveis: realização de atividade física regular (150 minutos por semana em moderada intensidade, reduzem os riscos entre 10 a 28%), cessar tabagismo (redução de até 30%), cessar uso de bebidas alcoólicas (redução de até 10,5%). O autoexame continua sendo importante para que a mulher conheça seu próprio corpo e detecte mudanças no intervalo dos exames anuais ou no cenário de ainda não estar na faixa etária preconizada para realização dos exames, porém não substitui em nenhum momento a realização dos exames.
A Praça – A partir de que idade a mulher já deve começar a pensar em se cuidar, se preocupar com a saúde e na prevenção de doenças como o câncer de mama? Mulheres jovens também podem ter câncer de mama?
Dra. Laís – Para mulheres de risco habitual, a Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda mamografia anual a partir dos 40 anos podendo ir até os 74 anos ou mais. Nos casos de alto risco, como algumas síndromes hereditárias, o acompanhamento pode começar antes e incluir outros exames. Sim, mulheres jovens também podem desenvolver câncer de mama, chegando a 17% do número de casos em pacientes menores de 40 anos.
A Praça – No caso do câncer mama deve haver uma atenção diferente para quem tem histórico na família? Quais são os fatores de risco que mais vemos hoje? Sedentarismo, alimentação, reposição hormonal?
Dra. Laís – Sim. Ter casos de câncer de mama ou ovário na família, especialmente em parentes de primeiro e segundo grau em idades mais jovens, precisam de atenção. Algumas famílias precisam de aconselhamento genético, mas a maioria dos casos de câncer de mama acontece em mulheres sem histórico familiar conhecido. Existem os fatores de risco modificáveis e os não modificáveis. Sexo feminino, idade avançada, fatores genéticos estão entre os principais não modificáveis, mas devemos reforçar a importância dos fatores de risco modificáveis que mais vemos hoje: obesidade, sedentarismo, tabagismo e alcoolismo. A mudança no estilo de vida com práticas saudáveis pode reduzir em até 30% as chances de câncer de mama, sem contar na redução de outros tipos de câncer, como o colorretal, por exemplo. Amamentação, quando possível também é um fator de proteção. Reposição hormonal e uso de anticoncepcional podem, quando em uso prolongado, aumentar o risco da doença por aumento da exposição hormonal, deve ser indicado de forma individualizada, principalmente em pacientes com fatores de risco mais altos.
A Praça – Quais sintomas a mulher não pode ignorar além do nódulo? Se ela receber o laudo com resultado de nódulo, que medidas adotar para não entrar em pânico e qual o próximo passo?
Dra. Laís – Devemos observar alterações como retração ou mudança na pele da mama, (como aspecto de casca de laranja), vermelhidão persistente, feridas que não cicatrizam, mudança no formato do mamilo, saída espontânea de secreção pelo mamilo, principalmente transparente e/ou com sangue, caroços na axila. Essas alterações não significam necessariamente câncer, mas precisam ser investigadas. Quando surge a palavra ‘nódulo’ em um exame, a primeira orientação é não entrar em pânico: muitos desses nódulos são benignos. O próximo passo é mostrar o exame ao mastologista que avaliará as imagens e classificação, o histórico e o exame clínico. Dependendo do achado, pode ser suficiente acompanhar, complementar com outros exames ou indicar biópsia. O mais importante é não ignorar o resultado e não concluir, por conta própria, qualquer diagnóstico.
A Praça – A demora em iniciar o tratamento pode diminuir as chances de cura?
Dra. Laís – Infelizmente pode, sim. De modo geral, quanto mais precocemente identificamos e tratamos um câncer de mama, maiores são as possibilidades de controlarmos a doença e alcançarmos a cura. Isso não significa que toda paciente deva ser operada imediatamente: muitas vezes precisamos concluir exames, estudar as características do tumor e decidir se o primeiro passo será uma cirurgia ou um tratamento medicamentoso (quimioterapia). É importante reforçar que atrasos desnecessários na investigação e no início do tratamento devem ser evitados pois aumentam substancialmente o risco de a doença evoluir para estágios mais avançados.
A Praça – Quais são as opções de tratamento mais eficazes hoje? O impacto emocional ainda é muito preponderante na vida da mulher? Qual o papel da família e do apoio psicológico durante o tratamento?
Dra. Laís – O tratamento hoje se encontra cada vez mais individualizado e varia muito a depender do tipo de tumor, histórico de saúde da paciente, fatores genéticos relacionados ao tumor, dentre outros fatores que avaliam risco e benefício para cada pessoa. Dentre os tratamentos podemos citar: cirurgia da mama, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia, terapias-alvo e, em situações específicas, imunoterapia. Também considero essencial falar sobre a reconstrução mamária: quando indicada e desejada pela paciente, ela pode ser realizada inclusive no mesmo ato da mastectomia, contribuindo para a recuperação da imagem corporal, da autoestima e da qualidade de vida. A reconstrução é uma possibilidade e um direito, não uma obrigação. O impacto emocional do diagnóstico é muito grande, pois envolve medos, mudanças na rotina e na relação com o próprio corpo. A rede de apoio familiar tem papel fundamental ao acolher, ouvir e ajudar se mostrando sempre disponível a prestar assistência. Diante de todas as incertezas de um diagnóstico tão complexo na vida de uma pessoa com câncer, acompanhamento psicológico é fundamental para o restabelecimento da saúde.
A Praça – Vamos fazer um bate-bola rápido: sutiã apertado causa câncer? Prótese de silicone atrapalha o exame? Anticoncepcional aumenta o risco? Homem também tem câncer de mama? Mamografia causa câncer?
Dra. Laís – Sutiã apertado causa câncer? Não existe nenhuma evidência científica que ateste isso. Prótese de silicone atrapalha o exame? Existem manobras para posicionar a prótese que otimizam a visualização do tecido mamário no exame, se não realizadas podem dificultar a visualização de parte do tecido na mamografia, então é fundamental avisar ao serviço de imagem. Anticoncepcional aumenta o risco? Alguns anticoncepcionais hormonais estão associados a um pequeno aumento de risco durante o uso, principalmente se for prolongado; isso não significa que sejam proibidos! A escolha deve ser individualizada. Homem também tem câncer de mama? Sim. É raro, mas acontece, em 1% dos casos, principalmente associados a fatores genéticos de risco. Mamografia causa câncer? Não! Mamografia pode detectar lesões na forma mais precoce do câncer e salva vidas!
A Praça – Como familiares, empresas, instituições e ONGs podem apoiar a causa além do mês de outubro?
Dra. Laís – Familiares podem apoiar acompanhando em consultas (infelizmente é grande o número de pacientes desacompanhadas), dividindo responsabilidades durante o tratamento. Empresas podem promover educação em saúde, facilitar a liberação para exames, acolher funcionárias em tratamento, respeitando sua privacidade. Escolas, instituições, associações e organizações não governamentais podem ajudar a levar informações baseadas em evidências científicas às comunidades, combater a desinformação e fortalecer redes de apoio. Na nossa região, iniciativas que facilitem o acesso aos exames, ao transporte para consultas e ao acompanhamento especializado fazem uma diferença muito concreta. Apoiar a causa é criar condições para que a mulher consiga se cuidar ao longo de todos o ano. O Outubro Rosa deve ser um ponto de partida, não uma ação limitada a um mês
A Praça – O preconceito ainda é um fator influente na prevenção e até no tratamento do câncer de mama?
Dra. Laís – O preconceito ainda pode influenciar. Algumas mulheres deixam de procurar atendimento por vergonha de mostrar as mamas, medo de um diagnóstico, receio de perder a feminilidade ou de enfrentar mudanças na aparência. Há também mitos, como a ideia de que câncer é sempre uma sentença de morte ou de que a paciente é culpada por adoecer. Nada disso ajuda. O câncer de mama não define quem a mulher é. Precisamos falar sobre o assunto com respeito, sem julgamentos e sem impor silêncio. Informação, acolhimento e acesso ao cuidado ajudam a diminuir o medo e fazem com que mais mulheres procurem ajuda no momento certo.
A Praça – A senhora poderia deixar uma mensagem direta para a mulher que está lendo esta entrevista e tem medo de fazer o exame?
Dra. Laís – Eu diria você, leitora: se já chegou a idade de realizar a mamografia, não deixe para depois…faça! O exame é muito rápido, o tempo em que a mama passa apertada não chega nem a um minuto, em troca, você receberá um ano de tranquilidade no acompanhamento da sua saúde… é uma troca justa, concorda? Não permita que o medo decida por você. Sei que fazer um exame pode causar ansiedade, principalmente pelo receio de encontrar alguma alteração, mas adiar o cuidado não faz o problema desaparecer. Se por acaso o exame mostrar algo suspeito, existe a possibilidade de se investigar e agir mais cedo. Você não precisa enfrentar esse caminho sozinha. Procure um profissional em quem confie, tire suas dúvidas e cuide de você. O diagnóstico precoce pode transformar uma história de medo em uma história de tratamento, esperança e vida. Cuide-se por você e por tudo aquilo que você sonha e que ainda deseja viver.

Perfil
Laís Bandeira Correia Mendonça é médica mastologista com residência médica pelo Instituto do Câncer do Ceará (ICC), fez residência médica em Cirurgia pela Universidade Federal do Ceará. Especialização em Medicina da Família e comunidade pelo programa Mais Médicos para o Brasil/Universidade Federal do Ceará.



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