Nas margens do rio Jaguaribe, no sertão do Ceará, vivem mulheres que fizeram poesia com as mãos e sabão. São as lavadeiras, figuras que há gerações compartilham, entre cantos e silêncios, a força de um gesto ancestral: lavar roupas, lavar histórias, lavar o tempo. É sobre elas e suas histórias que surgiu o filme longa-metragem: “Mulheres que Ensaboam Palavras”, uma produção de Rizoma, Alquimia da Palavra e InCartaz, com direção de Tâmara Bezerra e Marcelo Paes de Carvalho. O projeto foi contemplado pela Lei Paulo Gustavo, reforçando o compromisso com o fomento à cultura, à memória popular e às vozes do Brasil profundo. Em Iguatu o filme será exibido no dia 21 próximo.
O filme percorre sete cidades cearenses banhadas pelo rio Jaguaribe: Orós, Iguatu, Jucás, Cariús, Quixelô, Tarrafas e Antonina do Norte. Nesse percurso do manancial foram recolhidas memórias que escorrem como água sobre a pedra. “ Mais que um documentário, é um mergulho. As imagens lavam a alma. Os sons são de pedra e de voz. A trilha vem do trabalho: pano torcido, mãos em compasso, sabão em espuma e cantos entre uma história e outra. Cada mulher filmada carrega consigo um mundo”, é o expressar da direção.
De acordo com a produção, o filme será exibido em praças públicas das cidades onde nasceu. “Agora em agosto, esse mundo retorna para casa. A céu aberto, como quem estende panos no varal. A partir do dia 18, as lavadeiras se verão pela primeira vez no cinema. Sim, pela primeira vez: das 22 entrevistadas, apenas uma já tinha ido ao cinema. A devolutiva será também um ato de encontro. Um novo corte será criado com esses momentos, lavadeiras assistindo a si mesmas em uma tela gigante de cinema. Um espelho em movimento, onde memória, afeto e pertencimento se cruzam. “Mulheres que Ensaboam Palavras” é um canto coletivo. Um retrato vivo da oralidade feminina do sertão. Uma celebração à sabedoria que se transmite com o corpo, com o gesto, com a terra e com a água”, destaca a produção do filme.

Cabelos brancos e mãos calejadas
Marcelo Paes, que divide a direção com Tâmara Bezerra, falou sobre a experiência. “Quando fizemos a viagem de reconhecimento, meses atrás, tivemos a real dimensão da força que essas mulheres tinham. Elas claramente sentiam-se importantes por estarem sendo escutadas. Invisibilizadas a vida inteira, a verdade é que as nossas vidas é que estavam sendo tocadas por aquelas histórias contadas por senhoras de cabelos brancos e mãos calejadas pelos anos exercendo o ofício de lavadeiras na beira do rio Jaguaribe. Quando convidadas a visitar este mesmo rio, anos depois, muitas vezes nem sequer conseguíamos chegar até a margem pela presença de cercas de arame demarcando territórios não mais acessíveis. Outras vezes, as barreiras para chegar até aquele lugar que elas frequentavam todos os dias eram o lixo ou o esgoto, e o olhar de tristeza e saudade era evidente. Apesar da dureza da realidade do dia a dia, a sensação de um tempo que não existe mais. E para nós, equipe, a honra de eternizar histórias dessas mulheres que a cada peça de roupa “quarada” ao sol ajudaram inconscientemente a construir a nossa identidade brasileira”, ressaltou, agradecendo o trabalho de todos os envolvidos, as personagens, parceiros, patrocinadores e também quem fica por trás formando um grande elenco de profissionais e técnicos.

Percurso artístico
A iguatuense Carlê Rodrigues, contadora de histórias e produtora cultural, falou sobre participar da produção desse filme. “ Em janeiro, realizei uma produção local para a equipe que já estava em campo, em processo de pesquisa, visitando as lavadeiras. Nessa etapa, articulei a participação de algumas mulheres lavadeiras dos municípios de Iguatu, Jucás e Quixelô. Uma das pesquisadoras e também diretora do filme, Tâmara Bezerra, foi minha professora na Escola de Narradores. Após essa produção em Iguatu, ela me convidou para integrar o grupo de pesquisa formado pelas mulheres narradoras e pesquisadoras do coletivo Costureiras de Histórias. Fazer parte da equipe como pesquisadora tem sido fundamental para o meu amadurecimento enquanto narradora e pesquisadora da cultura popular e da oralidade. É um passo significativo no meu percurso artístico. Como diz Tâmara ao falar de Amadou Hampâté Bâ (escritor, historiador e etnólogo malinês), trata-se de um processo de “busca, preparo e partilha”. Uma busca por preservar as histórias de mulheres que narram suas próprias vivências, ao mesmo tempo em que nos preparamos para contá-las – seja por meio do cinema, da contação de histórias ou das conversas de calçada. E tudo isso acontece em diálogo com uma equipe de profissionais sensíveis e potentes, com quem tenho aprendido muito”, destacou Carlê.

Ficha técnica do filme “Mulheres que ensaboam palavras”
Realização: Alquimia da Palavra, Costureiras de Histórias, InCartaz, Rizoma Produções Artísticas
Direção: Marcelo Paes de Carvalho, Tâmara Bezerra
Assistência de direção e de produção: Deborah Belator
Fotografia e Roteiro: Júlio Coelho
Assistência de Fotografia: Pablo Garcia
Som: Geíza Oliveira
Produção Executiva: Jeferson Vieira, Marcelo Paes de Carvalho, Tâmara Bezerra
Produção local (Iguatu, Quixelô, Jucás): Carlê Rodrigues, Camila Barbosa
Consultoria Literária: Artur Andrade
Pesquisadoras e Entrevistadoras: Carlê Rodrigues, Camila Barbosa, Elzilene Nóbrega, Tâmara Bezerra
Motorista: Ricardo Rocha
Logger e Montagem: Rafasel Ferreira, Daniel Correia
Comunicação: Letícia Holanda, Jessica Eusébio
Controller: Dani Portela
Serviço
Exibição do filme “Mulheres que ensaboam palavras”
19/8: Antonina do Norte
20/8: Jucás
21/8: Iguatu e Quixelô
22/8: Saboeiro
23/8: Orós
24/8: Tarrafas



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