
Um dos vídeos mais lindos que eu vi na internet nos últimos anos me motivou a escrever a coluna de hoje. A minha prima Samile Bandeira, com um barrigão – ela está grávida –, foi ao show do Guns N’ Roses, com o seu esposo, o também médico Jonh Lima, na cidade de Salvador – BA. Até aí, nada demais né? Mas, à voz de Axl Rose acompanhada da guitarra inconfundível de Slash, Jonh escrevia, na barriga de sua esposa grávida, com um vidrinho de esmalte, a seguinte frase: Sweet Child. Esse fato em si já traduz algo muito forte. Mas isso acontecia bem na hora que o estádio inteiro cantava, em coro, o clássico Sweet Child O’ Mine. Você tem noção disso? Quando eu vi aquilo os meus olhos se encheram de lágrimas e o meu coração foi invadido por um sentimento tão nobre e é sobre esse sentimento que vou falar agora.
O fato é que, a cada novo anúncio de turnê dos Guns N’ Roses no Brasil, não falamos apenas de mais uma série de shows. Falamos de um reencontro geracional, um ritual coletivo que atravessa décadas e reafirma a força de uma das bandas mais emblemáticas da história do rock – e da música em si. Para quem cresceu nos anos 80 e 90, como eu, os pais e os tios de Samile, ouvir os primeiros acordes de clássicos como Sweet Child O’ Mine ou November Rain não é apenas um deleite musical — é uma viagem no tempo. Nossos encontros eram regados a boas risadas e muita música.

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
Para esse público que acompanha a banda desde o início, cada nova passagem pelo Brasil é quase uma reafirmação existencial – como viver é maravilhoso. Em tempos de mudanças aceleradas na indústria musical, com o domínio do streaming, a efemeridade dos hits, e uso de IA cada vez mais recorrente nas produções musicais, os Guns N’ Roses representam permanência. Representam a ideia de que certas obras não envelhecem — elas amadurecem com o seu público.
Mas o fenômeno não se limita à nostalgia e foi exatamente aqui que o vídeo da Samile me pegou. O que chama atenção nesta nova turnê é justamente a capacidade da banda de dialogar com as novas gerações. Jovens que sequer eram nascidos quando o álbum Appetite for Destruction foi lançado hoje cantam suas músicas com a mesma intensidade dos fãs mais antigos. E o que falar dos “jovens” que sequer nasceram – vide o vídeo já mencionado?
Há, nesse processo, uma espécie de redescoberta contínua e a internet – santa internet – contribui para reintroduzir os Guns N’ Roses a novos públicos.
No Brasil, esse encontro de gerações ganha contornos ainda mais interessantes. O país sempre teve uma relação especial com o rock internacional, e os Guns N’ Roses ocupam um lugar privilegiado nessa prateleira. Seus shows por aqui são conhecidos pela intensidade do público, que transforma apresentações em verdadeiras celebrações coletivas. Pais e filhos dividem o mesmo espaço, cantando as mesmas músicas, ainda que por motivos diferentes: uns pela memória, outros pela descoberta.
Essa nova turnê, portanto, não é apenas um evento musical. É um ponto de convergência entre passado, presente e futuro. Um lembrete de que a música, quando verdadeiramente significativa, não pertence a uma época — ela se reinventa em cada geração que a encontra e que ainda vai encontrá-la.
E talvez seja esse o maior legado dos Guns N’ Roses no Brasil: não apenas ter sido trilha sonora de uma geração, mas continuar sendo — décadas depois — uma ponte entre elas.
Bom fim de semana e até a próxima!

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