“Memória das águas: A história das enchentes de Iguatu” foi tema da defesa do TCC da jornalista iguatuense Beatriz Silva

24/05/2025

“Muita emoção, mas a sensação de dever cumprido!”, comentou Beatriz Silva sobre a apresentação da defesa dela do Trabalho de Término de Curso (TCC) para a bancada formada pelos professores Ivan Satuf e Amanda Teixeira, na terça-feira, 20, no laboratório de Radiojornalismo da Universidade Federal do Cariri, (UFCA), onde cursa Jornalismo, em Juazeiro do Norte. “Memória das águas: A história das enchentes de Iguatu”, foi tema da defesa da jornalista iguatuense, que teve como orientadoras as professoras Ligia Coeli e Juliana Lotif.

Beatriz Silva contou mais sobre a escolha desse assunto. “Por que esse tema? Bom eu sou iguatuense, nasci e me criei, morei em Iguatu até os meus dezoito anos, e as enchentes sempre foram um tema recorrente nas conversas da minha família por parte de pai. Eles têm uma casa há mais de sessenta anos por trás da igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no bairro Prado, e nas enchentes eles precisaram sair de casa porque a água invadiu todo o espaço da casa, algumas pessoas do bairro foram morar na igreja, e eu achava muito curioso o fato de que eles tinham que periodicamente ter que sair de casa para ficar em familiares, ter que colocar móveis em locais seguros. Eu achava isso muito extraordinário. Uma coisa muito fora daquela realidade que eu conhecia. Então, são histórias que eu costumei a escutar desde criança e tive essa curiosidade despertada”, explicou Beatriz, ressaltando que cresceu ouvindo essas histórias quando começava a quadra chuvosa.

“Da mesma forma eu costumava ouvir essas histórias da minha família por parte de mãe. Os meus bisavós maternos moravam em no sítio Quixoá, na beira do rio Jaguaribe, e em uma das enchentes eles também precisaram sair de casa por conta do aumento do volume das águas. Eu tinha essas histórias familiares sobre enchentes e foi algo que despertou minha curiosidade desde criança. Conforme eu fui crescendo, ficando adolescente, eu busquei saber mais. Tinha curiosidade sobre a história da cidade, só que não tinha acesso a nenhum livro, não consegui em biblioteca, nem da minha escola, nem da biblioteca pública”, disse.

Curiosidade e incômodo

Beatriz ingressou no curso de Jornalismo na Universidade Federal do Cariri, em 2021, a buscou se aprofundar ainda mais sobre o tema que tanto tinha curiosidade. “Eu não conseguia ter muito acesso a esse tipo de informação sobre as enchentes, sobre a história do município, às vezes pontualmente com um professor ou outro, e fui deixando essa história passar. E sempre me deu esse incômodo de não saber a história da minha cidade, não saber o que aconteceu porque eu acho que é algo muito rico você entrar em contato com a cultura, com a economia, com a história e com a memória de onde você veio. Na faculdade, eu tive a oportunidade de ir atrás dessa pauta das enchentes”, disse.

De acordo com Beatriz, entre dezembro 2023 e abril de 2024, ela cursou a disciplina de laboratório de radiojornalismo, e produziu um episódio de podcast chamado: “A revolta das águas” quando foi justamente investigar a história das águas de Iguatu. “Abordamos pontualmente as enchentes, falamos sobre as lagoas de Iguatu, eu fui para Iguatu com uma equipe da Universidade Federal do Cariri,  ficamos dois dias, fazendo entrevistas, fazendo visitas a campo e isso gerou um podcast que era da disciplina. E foi essa abordagem inicial do assunto. Após isso, eu tive uma conversa com uma professora do curso de jornalismo que deu a ideia de ampliar esse trabalho para um TCC. Então, eu fiquei com essa ideia porque eu achava que realmente valia. Eu podia expandir essa história. O que foi feito no podcast era algo muito apressado. A gente só teve vinte minutos. Então, foi quase que um panorama geral do município das lagoas, da disposição de afluentes, foi algo muito mais rápido, não foi tão aprofundado e isso conforme eu pesquisei daria para virar um TCC, daria para ser um trabalho mais aprofundado”, ressaltou.

Com a ideia ‘fervendo’ na mente, em agosto de 2024, Beatriz iniciou as pesquisas, fazendo trabalho na busca de informações e relatos históricos. “Fui nessa busca: como é que vou contar a história de Iguatu a partir das enchentes? Aonde eu posso pesquisar essa história, como eu posso encontrar pessoas, enfim, como é que eu posso montar esse projeto?  Foi quando entrei no grupo de Facebook ‘Iguatu Antigo’ que reúne pessoas da cidade, conterrâneos, que costumam relatar momentos do passado, compartilhar fotos, vídeos, relatos, enfim. Eu comecei a ver nesse grupo que a pauta das enchentes era algo recorrente, muita gente lembrava, tinha depoimentos, tinha fotos. Então, eu analisei todo o conteúdo desse grupo de Facebook que foi criado em 2020. Todas as publicações que eu vi que poderiam ser aproveitadas na minha pesquisa eu já separava, já deixava ali documentado”, lembrou.

 

Arquivo no jornal

A partir de uns livros que conseguiu emprestado surgiram mais indagações que motivaram a jovem estudante a continuar o garimpo atrás de informações para o seu trabalho. “Eu descobri que uma pessoa muito próxima de mim tinha vários livros sobre a história de Iguatu, que eu poderia ler esses livros que eu nunca tive contato em bibliotecas públicas ou particulares do município por exemplo. Wagner Ferreira, que é um colecionador e era uma pessoa próxima de mim. Ele me emprestou oito livros sobre a história de Iguatu de diversos autores, memorialistas, historiadores todos da cidade. Eu fui nessa busca, lendo todos esses livros, garimpando as enchentes. Onde as enchentes aparecem. Porque no meu ponto de vista tinham sido situações tão grandiosas que elas deveriam aparecer com muita recorrência, muito detalhadas nesses livros. Conforme eu fui lendo, essa expectativa foi quebrada. Eu conseguia no máximo um parágrafo, meia página, olhe lá quando eu lia nesses livros sobre as enchentes. Então, eu comecei a me perguntar por que que essas histórias das enchentes não são contadas se foram eventos que mudaram drasticamente a rotina do município não só uma vez, não só duas, mas pelo menos quatro vezes nos últimos 60 anos. Eu ficava muito incomodada com isso, lendo os livros, pesquisando e indignada por não ver essas histórias documentadas. O que dava mais força ainda pra eu pesquisar e tentar de alguma forma salvar essa memória, reunir esses relatos, reunir essas informações para que a memória das enchentes de Iguatu ficasse preservada. Foi mais nesse sentido.”

Ainda com muitas perguntas sem respostas, Beatriz passou a buscar nos meios de comunicação essas informações. “Nesse processo eu entrei em contato com o jornal Povo, que é o jornal mais antigo do Ceará ainda em circulação. Eu solicitei informações sobre enchentes em Iguatu nos anos 1960, 1974, 1985 e 2004. Eles me enviaram 39 arquivos, matérias do jornal relacionadas às enchentes nesses anos, capa de jornal, matérias especiais, tudo que tinha nos arquivos deles relacionados a isso, eles me enviaram foi o grande pilar da minha pesquisa. Essa analise bibliográfica dos jornais, das matérias de jornais. Porque me dava dados de quantas pessoas foram desabrigadas, de quantas casas foram destruídas, de quantos terrenos foram doados para construção de novas casas, então tinha o apoio dessas informações mais técnicas desses números, desses dados por meio das matérias de jornal. Eu também entrei em contato com a Secretaria de Infraestrutura de Iguatu, mas não tinha essas informações, eles não tinham esses dados documentados. Também entrei em contato com Defesa Civil de Iguatu que também não tinha esses dados. Então a minha fonte principal desse trabalho foram as matérias de jornal O Povo que tinha essas informações mais consolidadas e documentadas, relatos da época de como aconteceu, de quantas pessoas foram envolvidas, coisas mais técnicas por dizer assim”, relembrou.

‘Long form’

A saga passou a ser na vida da estudante uma missão. “E a partir disso eu fui montando com a orientação da minha orientadora a professora Ligia Coeli, que definiu que o formato a ser explorado com tudo isso que eu encontrei, materiais em texto, em vídeo, em áudio, em fotografias, seria uma reportagem ‘Long form’, que é um tipo de matéria jornalística principalmente divulgada no digital, ganhou popularidade a partir dos anos 2010, que consegue abordar um único assunto com esses diferentes tipos jornalísticos. O formato radiofônico, formato televisivo, o formato textual, formato de fotojornalismo. É um tipo de reportagem que consegue agregar todos esses formatos jornalísticos para tratar de um mesmo assunto. Você consegue desmembrar o assunto dentro dessas propostas de formatos. E foi o que a gente entrou em consenso que seria o melhor para essa quantidade de informações que eu obtive. A gente passou a realizar o projeto em si em janeiro de 2025 e finalizando agora em maio”.

Fontes e personagens

O trabalho em campo, as entrevistas, relatos conseguidos, imagens, áudios e o contato direto com as fontes, o momento depois foi de organizar tudo para concluir o trabalho. “Eu entrei em contato com as minhas fontes primeiro por meio do grupo do Facebook. Eu coloquei um anúncio lá me identificando falando que eu estava fazendo uma pesquisa para o TCC relacionada às enchentes e quem tivesse histórias e que quisesse compartilhar comigo, quisesse conceder uma entrevista, o meu contato estava lá. O J. Guedes do jornal A Praça e da Jangadeiro FM entrou em contato comigo. Ele tinha sido assessor de imprensa do município em 2004, durante as enchentes e que conheci outras pessoas também atingidas. Então ele me deu entrevista, me levou a Francisca Holanda, conhecida como Chica do Padre que foi uma das fundadoras da Vila Centenário, que saiu da Vila Neuma em 1974, que fundou o bairro, também me colocou em contato com outras pessoas. Também Dauyzio Alves, que é biólogo e ativista ambiental, que me colocou em contato com outras fontes como o próprio pai dele, seu Roseli Alves que precisou sair da Vila Neuma, em 1985, Francisca Batista que saiu da Vila Neuma em 2004 e depois retornou, Luzinete Alves, da Vila Neuma que perdeu a casa dela. A casa em que mora atualmente foi a comunidade que doou. Eu tive contato, entrevistei essas seis pessoas e a partir desse grupo de Facebook e dos contatos que eu tive no podcast. Pessoas que eu conheci durante a apuração do podcast então também ampliou essas fontes. Essas pessoas humanizam essa história. Um dado que fala que 1.500 pessoas foram atingidas pelas enchentes em Iguatu é muito vago, mas se eu tenho dona Francisca que me conta que perdeu a casa dela enquanto estava grávida nas enchentes de 1974, ela traz uma história pessoal. Por mais que tenham passados vários anos, ela consegue lembrar daquilo. Ela me conta com fidelidade. Ela é uma daquelas vítimas, ela tem a história dela que foi atravessada por essa enchente. Eu também entrevistei Chico de Paula, que lembra das enchentes de 1960, quando criança morando no Prado. Para cada enchente eu consegui entrevistar pelo menos uma pessoa que foi muito importante. Elas aparecem ao longo dessa reportagem seja no vídeo, seja no áudio, seja no texto, seja nas imagens, elas estão ali sempre presentes, porque são histórias, são pessoas que enfrentaram essa tragédia de perder casas, de perder móveis, de se reestruturar em outros locais temporariamente, depois retornar para suas vidas no meio desse caos. São vidas humanas, pessoas que enfrentaram isso que até hoje carregam as memórias dessas enchentes”, pontuou.

Um ano e cinco meses

De modo geral foram oito 8 livros lidos, 10 artigos científicos, 39 matérias de jornais, 6 entrevistas realizadas com pessoas de Iguatu e 9 fotos utilizadas no site. Parece até fácil, mas toda essa pesquisa durou um ano e cinco meses para ser consolidada, resultando no site Memória das águas a história das enchentes de Iguatu. “O site é uma reportagem em formato long form. Contempla o assunto em materiais, em vídeo, em áudio, em texto, e em fotografia pra tentar reunir essas memórias para levar à posteridade essas memórias, que não fiquem perdidas apenas nos relatos de algumas pessoas, mas que elas estejam ali documentadas”, complementou Beatriz, feliz e realizada com esse importante trabalho, uma riqueza que deve ser conhecida e compartilhada.

“Em resumo, foi isso foi uma pesquisa bibliográfica, foram entrevistas realizadas que se tornaram a reportagem em formato long form no site Memória das águas, a história das enchentes de Iguatu, que tem esse panorama, é uma tentativa de materializar as histórias das enchentes de Iguatu. Outras fontes muito importantes de pesquisa foram o site da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos – FUNCEME e a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará – COGERH, que traziam dados tanto sobre chuvas durante o período das enchentes quanto sobre a Bacia do Alto Jaguaribe, que o Iguatu faz parte. Também compuseram essa pesquisa, em geral foi isso”, complementou a jornalista que conclui o curso ainda este ano de 2025.

Créditos

Para o Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo da UFCA, a apuração, pesquisa, reportagem e montagem do site foi de Beatriz Silva, que contou com a orientação das professoras Ligia Coeli e Juliana Lotif; a identidade visual foi de Admilton Alves; o apoio através dos arquivos do jornal O Povo foi de Roberto Araújo. “Pesquisar e apresentar um trabalho sobre a história das enchentes de Iguatu é uma tentativa de preservar os relatos de quem sofreu na pele a consequência das inundações e uma contribuição para a documentação de períodos tão delicados do município. Como jornalista e iguatuense, realizar este trabalho traz uma satisfação imensa por eternizar a história da minha cidade e poder compartilhar com outras pessoas”, concluiu.

O trabalho de pesquisa e história da jornalista Beatriz Silva estão no site: https://beatrizsilvajorn.wixsite.com/memoriadasaguas

 

MAIS Notícias
Volume do açude Trussu chega a 86,76% da capacidade
Volume do açude Trussu chega a 86,76% da capacidade

O açude Carlos Roberto Costa (Trussu) registrou aumento no nível de água durante a primeira semana de março, impulsionado pelas chuvas que atingiram a região. Dados da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos apontam que o reservatório teve uma elevação de 12...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *