Não basta possuir uma arma. É preciso saber usá-la

24/10/2026

Simião Alves da Silva

(Professor e poeta)

 

O poder de escolher traz consigo a responsabilidade de compreender as consequências de cada decisão. Na democracia, o voto é uma das expressões mais importantes desse poder: por meio dele, o cidadão participa da construção do destino coletivo. Entretanto, possuir esse direito não nos torna imunes ao engano. Sem reflexão, podemos colocar em risco justamente aquilo que desejamos defender.

Em tempos de disputas eleitorais, quando discursos despertam paixões e promessas procuram conquistar nossa confiança, é necessário olhar além das aparências. O entusiasmo não deve dispensar o discernimento, nem a admiração por um candidato substituir o exame de suas propostas e atitudes. A parábola a seguir, de minha autoria, traduz o perigo de agir sem perceber a direção da própria escolha.

O homem caminhava pelo coração da selva, buscando desesperadamente uma rota que o levasse a um lugar seguro. No meio de sua jornada deparou-se com uma fera imponente. O animal o encarava fixamente, como quem enxerga uma presa fácil e saborosa.

O primeiro instinto do homem foi correr. Ele tinha pernas saudáveis e fôlego suficiente para ir longe, mas logo se lembrou de que carregava consigo uma arma potente, bem ali ao seu alcance. Seria a melhor chance de afastar de vez o risco de ser devorado.

Ele então empunhou a sua arma. No entanto, fascinado pela beleza e pela postura imponente do animal, perdeu a atenção naquele momento crítico. Sem perceber que o cano estava virado para si mesmo, apertou o gatilho.

O disparo ecoou.

Em vez de abater a ameaça, o homem quebrou as próprias pernas.

As consequências dessa escolha ultrapassam o dia da eleição. Elas chegam ao atendimento de saúde, à escola dos nossos filhos, às condições de trabalho e à proteção dos mais vulneráveis. Por isso, votar exige conhecer trajetórias, conferir informações e perguntar a quem servem as propostas apresentadas. Exige também reconhecer que nenhum candidato está acima da crítica e que nossa responsabilidade continua depois da apuração.

A democracia precisa de cidadãos que escolham com liberdade e acompanhem seus representantes com atenção. Antes de confirmar o voto, convém fazer uma pausa e refletir: essa decisão fortalece os direitos e as condições de vida que desejo para minha família e para a sociedade? Ter o poder nas mãos é apenas o começo. Saber usá-lo é o que nos permite seguir adiante.

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