‘O Auto da Compadecida’ transforma noite no Sítio Tanque

03/10/2026

As peripécias, paisagens e o humor afiado da dupla João Grilo e Chicó chegaram à zona rural de Iguatu. O filme “O Auto da Compadecida”, adaptação cinematográfica com direção de Guel Arraes, foi exibido na sede da Associação de Moradores do Sítio Tanque e Queimadas, através do projeto Cinema na Comunidade. O clássico filme nacional, gravado há quase três décadas, continua arrancando risadas de quem a ele assiste. E por lá não foi diferente. Assistir ao filme, na telona, atraiu muitos moradores, entre crianças, jovens, adultos e idosos, que aproveitaram cada momento da obra.

Uma noite marcante também para a moradora Ilderlândia Oliveira. “Para nós, que moramos na zona rural, receber uma sessão de cinema aqui na comunidade foi uma experiência muito especial. Muitas vezes, para ter acesso a uma atividade como essa, precisamos ir até as cidades grandes ou assistir apenas pela televisão, o que nem sempre é possível por causa da distância e das dificuldades de transporte”, relatou, afirmando que o encontro foi tão importante quanto o filme. “Ver o cinema chegando até a nossa comunidade, reunindo crianças, jovens, adultos e famílias em um mesmo espaço, foi muito mais do que assistir a um filme. Foi uma oportunidade de estar junto, conversar, dar risada. O filme trouxe uma história que tem muito da nossa cultura e do nosso jeito de viver, além de ser muito engraçado”.

O desejo agora é que outros filmes sejam exibidos e que o projeto continue criando a integração entre os moradores. “Para mim, uma iniciativa como essa mostra que a cultura também precisa chegar às comunidades rurais e que nós também temos direito a esses momentos. Espero que essa não seja uma ação isolada e que outras sessões possam acontecer. Agradecemos muito ao Coletivo Reticências Sociais e à associação de moradores pela ação”, disse.

Gratificante

A exibição faz parte do projeto Cinema na Comunidade: Cultura e Acesso, realizado pelo Coletivo Reticências Sociais em parceria com Associação de Moradores do Sítio Tanque e Queimadas. Para o coordenador do projeto, o produtor cultural Karisson Lima, o significado da ação vai além da exibição do filme. “Poder promover à minha comunidade o acesso a bens culturais é muito gratificante. A partir de ações como essas, moradores podem experimentar e consumir produções do cinema nacional como se estivessem em cinemas de grandes centros”, afirmou.

Segundo Lima, o projeto de cinema é mais do que a exibição de um filme. “Além de ações como essa, o coletivo busca proporcionar espaços de formação social e educacional através de palestras, formações e oficinas que debatem os direitos humanos, o cuidado com o meio ambiente e a diversidade”, explicou.

A escolha do filme também ajudou na conexão com o público. Ambientada no sertão nordestino, a história de João Grilo e Chicó trouxe para a tela paisagens, costumes e um humor que os moradores conhecem bem. Antes de se tornar um dos maiores clássicos do audiovisual brasileiro, “O Auto da Compadecida” nasceu da genialidade do paraibano Ariano Suassuna. Escrita em 1955 como uma peça teatral, a obra ganhou o país ao misturar a tradição da literatura de cordel, o drama religioso e a religiosidade popular com a comédia bem-humorada do sertanejo. O texto imortalizou a dupla João Grilo — o astuto e espertalhão que usa a inteligência para sobreviver à miséria — e Chicó, o sertanejo covarde e contador de histórias conhecido pelo seu infalível bordão “não sei, só sei que foi assim”.

A adaptação cinematográfica, lançada nos cinemas nos anos 2000 com direção de Guel Arraes, fixou essas figuras no imaginário nacional. Décadas depois de sua criação.

Ponto de Cultura

Viabilizado pelo projeto Cinema na Comunidade: Cultura e Acesso, promovido pelo Coletivo Reticências Sociais com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o evento provou que a cultura é um direito fundamental de todos. Mais do que exibir um filme com o qual os moradores se identificam profundamente, a ação proporcionou um encontro intergeracional repleto de gargalhadas, fortalecendo a identidade local e levando o cinema para mais perto das pessoas.

O grupo, reconhecido como Ponto de Cultura, completa dez anos de atuação na região Centro-Sul do Ceará em 2027. A ação foi feita em parceria com a associação de moradores, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), repassados pela Secretaria de Cultura e Turismo de Iguatu. O projeto também contou com o apoio cultural da Associação Cultural Maria Bonita, da AMASTQ e do Projeto Arte Criança (PAC).

A sessão no Sítio Tanque mostra, na prática, o efeito das políticas públicas de cultura. Com a Política Nacional Aldir Blanc, recursos federais chegam a estados e municípios e são destinados a agentes culturais locais. São esses grupos que conhecem as necessidades de cada território e sabem como chegar até a população.

Quando esses recursos chegam a coletivos com atuação comunitária, o resultado vai além do entretenimento. Eles fortalecem os vínculos entre os moradores, valorizam a identidade local e reconhecem que o acesso à cultura é um direito de todos, inclusive de quem vive longe dos grandes centros urbanos.

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