O ipê roxo do Prado: símbolo de resistência e beleza

26/07/2025

Na Praça dos Leões (Praça dos Redentoristas), no bairro Prado, em Iguatu, um espetáculo silencioso tem encantado os olhos e os corações de quem passa. Um imponente ipê roxo, com copa larga e flores vibrantes, entrou em florada e passou a atrair não apenas olhares curiosos, mas também fotógrafos amadores, moradores do entorno e admiradores da natureza. A árvore, considerada a de maior dimensão na área urbana da cidade, se tornou símbolo da beleza natural que resiste ao tempo e à urbanização, além de carregar uma história que remonta à década de 1990.

A florada do ipê roxo no Prado é mais do que um momento passageiro: é um lembrete do poder transformador de pequenas ações e do cuidado com o meio ambiente. Uma muda plantada há mais de três décadas se tornou um marco da cidade, inspirando moradores a valorizar e proteger o patrimônio natural de Iguatu.

O plantio do ipê no Bairro Prado foi feito por Djalma Pereira, sacristão da Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que fica em frente à praça. Ele relembra com emoção o início dessa história, que começou em 1992, após um evento da Romaria da Terra, ainda no período do bispado de Dom José Mauro (in memoriam). “Plantei a muda, em 1992, mas depois de alguns dias a planta não vingou, acredito que por falta de cuidado. Foi então que peguei uma muda e substituí aquela que morreu. Hoje está aí”, recorda. O gesto, simples e persistente, fez florescer uma árvore que hoje se destaca não só pela beleza, mas pelo valor simbólico e histórico.

Embora o ipê do Prado se destaque por seu porte e exuberância, outras árvores da mesma espécie vêm sendo identificadas em diferentes pontos da cidade, ainda que em menor escala. Há registros de florescimento de ipês roxos na Praça Henrique de Souza Bandeira (Praça da Criança), nas avenidas Dário Rabelo e Fransquinha Dantas, e também na Praça do Bairro Santo Antônio e na sede FASC – Faculdade São Francisco do Ceará. Apesar de não atingirem o mesmo tamanho, essas árvores embelezam o espaço urbano e reforçam o papel do Ipê como símbolo ambiental da cidade.

Ecossistema

De acordo com o ambientalista e biólogo Dauyzio Silva, o ipê tem um significado especial para o povo do sertão. Embora comercialmente conhecido como ipê, no sertão é tradicionalmente chamado de “pau d’arco”, nome herdado da utilização de sua madeira resistente na confecção de arcos e ferramentas pelos antigos moradores da região. Além de sua beleza, o ipê exala um leve perfume característico durante a florada, o que o torna ainda mais atrativo para polinizadores naturais como abelhas e beija-flores. Para Dauyzio, essa interação entre planta e fauna local mostra como uma árvore pode ser muito mais do que um elemento decorativo: ela é parte vital do ecossistema.

As sementes do ipê da Praça dos Leões, inclusive, já foram utilizadas para produzir novas mudas, que posteriormente foram plantadas em outras áreas do município, ampliando o legado da árvore original. Em reconhecimento à importância dessa história, moradores e lideranças comunitárias do bairro Prado estudam a instalação de uma placa permanente ao lado da árvore, contando sua origem e papel na transformação da paisagem local.

Política de arborização

O trabalho de arborização urbana em Iguatu tem avançado nos últimos anos. Em 2018, a Secretaria de Agricultura do município iniciou a produção e distribuição de mudas de espécies nativas, incluindo diversas variedades de ipês. Desde então, milhares de mudas foram cultivadas, distribuídas e plantadas em áreas públicas e privadas, como parte de uma política de incentivo ao verde na cidade. Neste ano de 2025, a gestão municipal distribuiu 1.300 novas mudas, sendo 600 delas de diferentes variações de ipês, reforçando o compromisso com a recuperação da cobertura vegetal urbana.

Apesar desses avanços, Dauyzio Silva faz um alerta: a cidade de Iguatu já perdeu cerca de 45% de sua cobertura vegetal original, e a presença maciça de espécies exóticas continua sendo um fator de desequilíbrio ecológico. Ele defende uma política de arborização mais robusta, baseada em estudos técnicos e no uso predominante de espécies nativas. “Plantas como timbaúba, algaroba, sabonete e mais de 300 outras espécies regionais podem ser utilizadas para criar um ambiente mais equilibrado e sustentável, respeitando o bioma local e favorecendo a biodiversidade”, disse Dauyzio.

Escolha funcional e estética

O biólogo também adverte para os riscos da monocultura urbana – ou seja, o plantio excessivo de uma mesma espécie em larga escala -, prática que pode ser prejudicial ao equilíbrio ambiental. Embora o ipê seja uma excelente opção para áreas urbanas, é necessário que ele seja plantado junto a outras espécies, evitando pragas específicas e mantendo a diversidade vegetal da cidade.

Plantado com o devido cuidado, o ipê pode ser cultivado também em frente a residências. “Por possuir raiz pivotante, ele não costuma danificar calçadas, desde que o plantio seja feito a pelo menos um metro de distância da estrutura. Regado diariamente, o ipê se mantém verde o ano inteiro, embora sua florada se concentre apenas em determinadas épocas do ano. Além disso, sua copa oferece sombra e beleza, tornando-se uma escolha funcional e estética para o espaço urbano”, acrescentou.

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