Oscar: Brasil em festa

23/01/2026

 

O Cinema Brasileiro está em festa. Depois de vencer o Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa e melhor ator de drama para Wagner Moura, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, recebeu, nesta quinta-feira 22, quatro indicações para o Oscar 2026: melhor filme, melhor filme estrangeiro, melhor ator e – novidade nas categorias da premiação -, melhor direção de elenco.

Em linhas gerais, muito já se falou das qualidades estéticas da obra, mas há muito mais a se falar, pois o filme de Kleber Mendonça Filho, quer na perspectiva do conteúdo, quer na perspectiva da forma, é mesmo merecedor do rótulo de obra-prima do cinema contemporâneo.

Esta a razão por que, a exemplo do que fazem e farão críticos de cinema do Brasil e do mundo, sobre o filme, ouso tecer aqui mais algumas considerações.

Começo por retomar um aspecto do que ressaltei em coluna da semana passada sobre o fato de ser o diretor pernambucano um realizador de “extração clássica”, muito embora sua filmografia, desde a estreia em longas-metragens, com “O Som ao Redor” (2013), assente-se, no plano da expressão, em elementos característicos do que se convencionou chamar de cinema moderno. Houve, a propósito, quem me pedisse descer a detalhes sobre minha afirmação: “Pode-se dizer de extração clássica quem, como ele [Kleber Mendonça Filho] faz um filme tão moderno?”

A pergunta, curiosa e plenamente aceitável, veio, como se vê, de alguém com bom nível de conhecimento da arte cinematográfica, o que, mais ainda, justifica que faça este articulista, aqui e agora, algumas ponderações. Vamos a elas.

Como disse, Kleber Mendonça Filho, muito antes de realizar filmes, dedicou-se a escrever sobre cinema, no Recife e em São Paulo, notabilizando-se pela “pegada” analítica fundamentada em pressupostos da melhor abordagem acadêmica.

E não me refiro, unicamente, por óbvio, ao fato de apoiar a sua crítica em linguagem adequada, precisa, lançando mão de um léxico específico do cinema com notável rigor técnico, distanciando-se do que, sem qualquer preconceito, poder-se-ia definir como uma crítica de cunho “impressionista”: vazada em “achismos” e subjetivações estranhas ao “texto” cinematográfico propriamente dito, entendendo-se por texto, ressalte-se, o que diz a semiótica do cinema: a linguagem fílmica organizada capaz de transmitir sentidos.

Soma-se a isso, agora me voltando para o filme, o rigor técnico na construção da narrativa: os planos (chama-se de plano a unidade básica de filmagem entre um corte e outro) articulam-se sem rupturas de continuidade; as cenas e sequências obedecem a uma lógica de conflito, espaço e tempo, exceto, como no cinema clássico, nos flashbacks, em que Marcelo/Armando narra situações vividas à época da universidade (professor perseguido pelos militares), esteio temático que vai fornecendo para o espectador o plot fílmico: a história de um homem que foge da perseguição militar em fins da década de 1970 e volta a Recife em busca do filho.

O roteiro, provavelmente o elemento mais clássico da estrutura narrativa de “O Agente Secreto”, e não me refiro ao que é possível ao espectador acompanhar durante a exibição do filme, mas ao texto escrito que dá suporte à narrativa fílmica, foi produzido sobre bases teóricas tradicionais: cabeçalho da cena (EXT. POSTO DE GASOLINA – DIA); Ação: descrição física do que ocorrerá na tela; Nomes dos personagens em maiúsculas acima do diálogo; Diálogo: falas centralizadas acima do diálogo como indicação de quem está falando; Rubricas: indicações de como o ator ou atriz deve dizer as falas (rindo, sussurrando, olhando para o lado etc.); Transição: CORTE PARA, com informações alinhadas à direita da página, e uso recorrente de “storyboard” do enquadramento e ângulo da câmera etc.

Do ponto de vista do conteúdo, o roteiro apoia-se na estrutura clássica: Atos, conflito e arco de personagem: mudanças emocionais ou psicológica do protagonista e coadjuvantes estão explicitados no roteiro de “O Agente Secreto”.

Contudo, o resultado final do filme de Kleber Mendonça Filho “não conduz o espectador pela mão”. Antes pelo contrário, em que pese a adoção de procedimentos tradicionais, o filme tem uma concepção cinematográfica geral moderna, e as escolhas narrativas não se submetem a didatismos convencionais: as transições, por exemplo, prescindem de expedientes recorrentes no cinema clássico, e duas ou três vezes, apenas, legendas são usadas para definir as partes estruturais da história.

A direção de elenco, neste sentido, é leve, solta, muito embora exigente do ponto de vista técnico, mas sem rebuscamentos de interpretação, o que dá ao trabalho de ator de Wagner Moura (e ao casting como um todo) uma leveza e uma naturalidade que surpreendem em se tratando de um filme cujo estofo dramático poderia resultar afetado e piegas.

Eis o maior mérito do ator (característica já conhecida em sua trajetória brilhante), como a revelar uma sólida formação no “Method Acting”, bem ao gosto de um “certo” Stanislavski que lhe serviu de base no teatro desde sua iniciação em Salvador.

Wagner Moura, por isso mesmo, traz realismo intenso e profundidade psicológica para a personagem, o que ecoa em igual medida e força dramática no desfecho do filme, quando interpreta o jovem médico – seu próprio filho.

Sublime.

Clássico? Moderno? Romântico? Realista? Tudo isso e muito mais. “O Agente Secreto” atravessa estilos e tendências à maneira de um Bergman, um Tarantino, um Elia Kazan (o esteta, não o dedo-duro), equilibrando-se emblematicamente bem entre diferentes registros estéticos, explorando as trevas para anunciar a luz.

Com força dramática, exatidão, vigor e poesia em níveis poucas vezes vistos no cinema contemporâneo, Kleber Mendonça Filho faz história e haverá de trazer, quando menos, uma segunda estatueta para o país.

Escrevam.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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