Pequenos milagres do amor

16/08/2025

“Amor me move: só por ele eu falo”.

Dante (1265-1321), “Divina Comédia”

 

Em sua bela autobiografia “Viver para contar”, Gabriel García Márquez traz em epígrafe uma afirmação bastante curiosa: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.”

Prestes a começar um livro de memórias, vacilei, entre empolgado e inseguro. Achava um desafio tentar resgatar da mente já embotada acontecimentos tão distantes, agora que estamos em 2025.

O livro do escritor colombiano, assim, foi decisivo para que eu tivesse o atrevimento de produzir essas minhas memórias. Sem estrutura definida, sem o rigor assente em alguns clássicos do gênero. Não, não. Que saíssem essas recordações em absoluta afinação com a etimologia da palavra, isso me bastava. Do latim re + cordari: trazer de volta ao coração. E que o leitor, se houvesse, percebesse que o livro foi se compondo ao sabor das lembranças acidentais, da pequena chama que se acende na mente e no coração, quando, por exemplo, somos ‘tocados’ pelo perfume de alguém, pela música que por alguma razão marcou nossa vida, ou por depararmos, sem explicação, com fotos de uma viagem, de um lugar ou de alguém que, um dia, amamos mais do que nos fora dado amar.

Assumo que sou um saudosista, e que tenho uma tendência irrefreável para valorizar o passado, não de forma piegas, fechando os olhos para o caminho que se estende à frente, lamentando o que podia ter feito e não fiz. Nunca. Mas gosto de lembrar passagens, momentos de minha vida, lugares em que estive neste mundo vasto, como quis Drummond, sozinho ou na companhia de pessoas que enriqueceram minha história com a força de suas presenças.

Gosto do gênero. Memórias, biografias, autobiografias, diários. Leio sempre, de Jorge Amado a Rosa Montero, de Joel Silveira a Simone de Beauvoir. Agora, por último, li algumas autobiografias interessantíssimas: “As curvas do tempo”, de Oscar Niemeyer; “O teatro e eu”, de Sérgio Brito; “Memórias de um intelectual comunista”, de Leandro Konder; o extraordinário “Meu último suspiro”, de Luiz Buñuel, “A soma dos dias”, de Isabel Allende, e, ainda quentinho, em nova edição, “De menino a homem”, de Gilberto Freyre.

Acho uma experiência curiosa essa de voltar um pouco no tempo, de revisitar o passado.

Talvez por isso Ouro Preto, e algumas outras cidades do circuito histórico de Minas, estejam entre as viagens inesquecíveis. Entre 1979 e hoje, fui diversas vezes às cidades históricas mineiras, de cujas viagens, era minha intenção, resultaria um trabalho sobre o barroco brasileiro, tomando por base o acervo de Minas Gerais. O tempo passou e pouco escrevi sobre isso, um ou outro artigo, um ensaio numa especialização na PUC, e só. Em meio aos registros, pequenas anotações em agendas e papeis esparsos, dos quais tiro muitas das referências de que se compõem minhas recordações, deparo, a cair de entre as páginas de um livro, com um esboço do que seria um artigo sobre “Os profetas de Congonhas do Campo”.

Coisa do talvez ou do quem sabe, um sinal sonoro leva-me a abrir o display do celular em que me chega uma mensagem do Saulo, meu filho, a cujo texto se soma uma foto. No adro da Igreja de São Francisco, em Ouro Preto, sentados à mesma mureta em que fotografei seu pai muitos anos atrás, aparecem, lindos e amados, meus netos Saulo Filho e Luiza.

Coincidências que dispensam explicação. Pequenos milagres do Amor.

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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