Psicóloga autista transforma dor em projeto de apoio para adultos neurodivergentes

13/09/2025

Aos 12 anos, Bruna Barreto descobriu sua vocação para a Psicologia em um consultório de posto de saúde. Na infância, marcada por comportamentos agressivos, ela foi levada pelos pais a um atendimento psicológico que, sem saber, mudaria os rumos de sua vida. Hoje, aos 26 anos, é psicóloga clínica e tem dedicado sua trajetória a acolher quem, como ela, sentiu-se invisível durante boa parte da vida.

Com uma trajetória marcada por dor, resiliência e empatia, Bruna transforma o que um dia foi ferida em ferramenta de cura para si e para os outros. Um lembrete de que, mesmo nos caminhos mais difíceis, é possível florescer.

Diagnosticada como autista na vida adulta, Bruna conta que sua formação acadêmica foi desafiadora, marcada por vivências difíceis e crises emocionais silenciosas. “Chorava quase todos os dias sem que ninguém soubesse”, lembra. O peso desse período foi tamanho que, mesmo após a conclusão do curso, desenvolveu pânico em relação ao ambiente universitário. Ainda assim, nunca perdeu o foco.

Identificação

Atuando há quase três anos com atendimento clínico, Bruna encontrou nos pacientes neurodivergentes uma identificação genuína. “Ser psicóloga e ser uma pessoa autista dialoga de forma muito significativa na minha trajetória”, afirma. Essa vivência dupla – como profissional e como paciente do espectro – molda sua escuta, seu olhar sensível e o modo como constrói intervenções mais humanas e adaptadas.

Dessa conexão nasceu também um projeto com propósito claro: criar espaços terapêuticos para adultos autistas. “Sempre me perguntei por que esses espaços ainda são tão escassos”, conta. A proposta do grupo terapêutico que está desenvolvendo é simples, mas poderosa: acolher. Mais do que tratar sintomas ou oferecer ferramentas técnicas, Bruna quer oferecer presença, compreensão e escuta ativa. “Não precisamos sofrer sozinhos, nem acreditar que a vida será sempre um fardo”, afirma.

Ponto de virada

Ela também chama atenção para o apagamento do autismo na vida adulta. “Por trás da camuflagem, existe dor. Nós, autistas, muitas vezes escondemos o que sentimos, colocamos a dor no bolso. E isso tem um preço alto.” A invisibilidade, segundo ela, contribui para o sofrimento psíquico e pode levar, infelizmente, a pensamentos suicidas. No seu caso, o diagnóstico foi um ponto de virada. “Foi o que me salvou e me ensinou a criar estratégias de cuidado.”

Hoje, sua experiência pessoal é a base do trabalho que desenvolve, sobretudo com adultos que buscam acolhimento tardiamente. Ela aponta que a falta de uma rede de apoio consistente é um dos maiores desafios enfrentados por autistas adultos, além da dificuldade em serem levados a sério em seus próprios processos. “Muitas vezes, eu só queria ser ouvida e compreendida enquanto pessoa.”

Bruna acredita que é preciso lembrar, sempre, que crianças autistas crescem – e continuam precisando de apoio. Para quem está em processo de descoberta, ela deixa uma mensagem que ecoa como um abraço: “Seja você mesmo, sem medo. Você não está sozinho. Permita-se existir e se mostrar como é. Há espaços e pessoas que querem caminhar com você.”

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