
Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
Há artistas que passam pela música. Outros a transformam. Renato Russo pertence, sem dúvida, ao segundo grupo.
Nascido 27 de março de 1960, no Rio de Janeiro, como Renato Manfredini Júnior, ele encontrou em Brasília o cenário ideal para desenvolver sua inquietação artística. Foi ali que, ainda jovem, enfrentou um período difícil ao ser diagnosticado com epifisiólise, uma doença óssea, que o deixou temporariamente, cerca de um ano e meio, afastado da vida social. Não há males que venham para o bem né? Foi justamente nesse período de dor e isolamento que Renato Russo se dedicou na plenitude de sua alma aos livros, aos discos e às reflexões: nascia ali um letrista visceral.
Em 13 de março de 1978, Renato foi escolhido entre os professores da Cultura Inglesa para saudar o então príncipe Charles, quando este participou da inauguração da nova sede da escola, ao visitar o Brasil naquele ano. Renato tinha apenas dezessete anos, mas seu inglês impecável lhe favoreceu no momento da escolha. De aluno ele passou a professor de Língua e Literatura Inglesa na Cultura Inglesa.
Aos dezoito anos, Renato revelou à sua mãe que era homossexual.
Antes da fama, liderou a banda Aborto Elétrico, um dos embriões do rock brasileiro dos anos 80. No entanto, foi com a Legião Urbana que Renato encontrou sua voz definitiva e, com isso, fez com que o Brasil se visse espelhado através do seu timbre.
Canções como Faroeste Caboclo, Tempo Perdido e Pais e Filhos ultrapassaram o status de música para se tornarem crônicas geracionais. Renato escrevia sobre amor, política, angústia e fé com uma honestidade descortinada. Sua obra dialogava com um país que saía da ditadura e buscava a sua própria identidade.
Leitor voraz, influenciado por autores como William Shakespeare e Fiódor Dostoiévski, Renato Russo trouxe para o rock brasileiro uma densidade rara, quase que literária. Não à toa, era chamado de “Trovador Solitário”.
Sua vida, porém, foi marcada por conflitos internos intensos. Renato se envolveu com uma fã e, desse relacionamento, nasceu um filho. Teve problemas severos relacionados ao uso de álcool e de outras drogas. Em 1990, numa internação para desintoxicação, foi diagnosticado com o vírus HIV e, desde então, a rotina da Legião Urbana teve de ser refeita. Era mais estúdio e menos palco.
Em 11 de outubro de 1996, o Brasil se despedia de sua voz mais inquieta, vítima de complicações decorrentes da AIDS. Tinha apenas 36 anos.
Apesar de ser o poeta de uma geração, Renato Russo nunca foi apenas um artista de seu tempo. Ele permanece atual porque suas perguntas ainda não foram totalmente respondidas. E talvez nunca sejam – ou você consegue responder “que país é este”?
No fim, sua maior obra não foi apenas a música, mas sim a sua coragem de sentir e a sua capacidade de transformar a sua dor no hino de uma geração. Hino este que é cantado até hoje.
Bom final de semana!
“ Será que vamos conseguir vencer? ”

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