Sobre rinocerontes e gado

23/01/2021

Amigo Paulo E. publica, no Facebook, texto interessante em que lê a realidade brasileira hoje à luz de Ionesco. Minto: à luz da peça O Rinoceronte, de Eugène Ionesco, que constitui o texto dramático mais popular do escritor romeno nascido em 1912.

Se há inveja positiva, foi o que senti tão-logo tive diante de mim o referido texto, pois é mesmo extremamente feliz a ideia que o moveu ao discorrer sobre o teatro do absurdo, em que se transformou a realidade brasileira, tomando por base uma das estéticas artísticas mais contundentes em termos de denúncia do autoritarismo que, vira e mexe, assola países de um e outro continente. O caso do Brasil é emblemático.

Mas o que é, em síntese, a peça de Eugène Ionesco para que se preste como metáfora do Brasil hoje?, é o que muitos e muitos leitores, que não leram O Rinoceronte, haverão de perguntar. Dou-me à missão com muito prazer, pois que corro na contramão dos que professam ser o Teatro do Absurdo algo ultrapassado como estética teatral. Vou mais longe: o que se convencionou chamar de Teatro do Absurdo guarda uma atualidade que poucas tendências artísticas o fizeram em tão grande escala. Para além da experimentação formal e de linguagem, como expressão da angústia e das preocupações do homem contemporâneo (ontem e hoje), de suas dores mais profundas em termos psicológicos; de sua aflição pela impotência em que se vê mergulhado por força da monstruosidade de um modelo político perverso na linha do que ocorre ao Brasil hoje.

Essa sensação de impotência, essa angústia metafísica pelo absurdo da condição humana, de degradação dos valores éticos, do senso de correção e justiça, da desfaçatez por que se orientam os que fazem o atual governo (no caso do Brasil), é a matéria que serve de substrato para as peças de Adamov, Genet, Beckett e, o aqui citado, Ionesco.

Eis a metáfora: numa manhã qualquer, de uma cidade qualquer, enquanto conversam amistosamente num café, os moradores são surpreendidos pela chegada de um rinoceronte. Em princípio, apenas discutem banalidades sobre o animal – quantos chifres, qual o seu peso etc. Aos poucos, as conversas se desencontram, os pontos de vista divergem, e, impotentes diante da súbita realidade, veem-se eles mesmos, os moradores, transformando-se em rinocerontes. Perdem a lisura da pele, a lógica dos sentidos, o senso de humanidade. Brutalizam-se.

Se a peça constitui uma crítica ácida contra o totalitarismo, tenha ele a cor que tiver, no que tem sido a interpretação mais recorrente, O Rinoceronte, como toda grande arte, enseja muitas outras reflexões.

É a sátira de Ionesco contra o conformismo diante dos poderosos, cuja monstruosidade transforma os homens em seres submissos, obedientes ou, o que é pior, coniventes com o absurdo de suas (deles, os governantes) ideias e práticas.

No Brasil, todavia, inexistindo os grandes quadrúpedes selvagens, próprios da África e da Ásia, quem sabe não se possa substituí-los por exemplares bovinos – numerosos, imensos, convictamente acomodados nas profundezas do absurdo?

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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