The Economist: o que o Brasil pode ensinar

29/08/2025

A poucos dias do julgamento de Jair Bolsonaro e sua corriola golpista, eis que uma das mais prestigiadas revistas do primeiro mundo traz em sua última edição valiosa matéria de capa sobre a política brasileira e o que, em editorial, considera uma verdadeira lição de democracia que o país dá aos Estados Unidos.

Não é pouco. A The Economist, ao lado de ser, como dissemos, uma publicação importante e extremamente lida (algo em torno de dois milhões entre Europa e Estados Unidos) sob nenhum aspecto pode ser classificada como progressista, pelo menos no sentido político-ideológico. Antes pelo contrário, sua linha editorial sempre esteve alinhada com o liberalismo clássico, favorável ao livre-comércio e aos mecanismos de globalização tradicionais. Destina-se, por isso mesmo, a um público altamente qualificado do ponto de vista intelectual e econômico, executivos influentes e elite financeira dos grandes centros do capitalismo contemporâneo.

Essas informações, faço questão de deixar evidenciado, têm por objetivo afastar a tortuosa ideia de que a extrema direita brasileira esteja sendo objeto de perseguição, a exemplo do que afirma o presidente norte-americano Donald Trump na intenção de justificar o tarifaço aplicado contra exportadores brasileiros.

Já no seu editorial, intitulado “Brasil dá aos Estados Unidos lição de maturidade democrática”, a revista diz que o processo de investigação levado a efeito contra o ex-presidente, na contramão do que professa “a esquerda americana” (sic), revela maturidade democrática.

“Os Estados Unidos estão se tornando mais corruptos, protecionistas e autoritários – com Donald Trump, esta semana, mexendo com o Federal Reserve (Fed) e ameaçando cidades controladas pelos democratas. Em contraste, mesmo com o governo Trump punindo o Brasil por processar Bolsonaro, o próprio país está determinado a salvaguardar e fortalecer sua democracia, diz a revista.

Mais: The Economist rotula Jair Bolsonaro de “Trump dos trópicos”, e considera que o ex-presidente e seus aliados deverão ser condenados. Numa percepção que reflete a consistência de sua opinião, acrescenta que o plano contra a democracia brasileira “fracassou por incompetência” e “não por intenção”.

Para a prestigiada revista londrina, parte numericamente dominante dos brasileiros, inclusive partidos de cartilhas divergentes, à esquerda e à direita, está convencida de que Bolsonaro significou um grande mal para o país. E conclui asseverando que o Brasil representa “um caso de teste de como os países se recuperam de uma febre populista”.

No momento em que o deputado Eduardo Bolsonaro, atormentado pela proximidade do julgamento de seu pai, ameaça expandir suas ideias delirantes para o continente europeu, numa ação que diz ser “o golpe definitivo” contra Alexandre Moraes, a publicação de matéria sobre a conclusão do processo contra Jair Bolsonaro e seus apaniguados, pela The Economist, materializa a opinião internacional acerca do que vem ocorrendo no Brasil hoje.

Não é pouco, reitero.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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