Tocar as telas ou tocar palavras?

07/02/2026

 

Há um tempo, conversando com uma pessoa responsável por cuidar de um dos meus alunos, ela comentou comigo que ele estava “quase batendo a meta”: cinquenta e sete livros lidos no ano. E só restavam três livros para bater a meta! Sete anos de idade.

Confesso que nós, professores, ficamos atônitos. Não porque fosse inacreditável, mas porque era bonito demais. E aqui, tenho que ser sincero com vocês. Me senti constrangido. Acredito que não só para mim, ler é difícil. Usamos a desculpa do dia a dia corrido e do cansaço acumulado. Criamos metas ambiciosas e corajosamente gritamos aos quatro cantos do mundo no início do ano: “vou ler tantos livros!” e, quase sempre, não conseguimos cumpri-las.

Hoje, tudo está muito confortável na palma da nossa mão. A notícia chega pronta. Nem é possível filtrar. Sendo assim, esquecemos de buscar, de folhear. sem perceber, vamos perdendo o hábito de sentar-se, abrir um livro e permanecer ali, em silêncio, sozinho com as palavras.

Enquanto aquela moça falava, pensei no contraste gritante com o que vejo diariamente. Crianças cada vez mais atentas às telas. Ora, os celulares brilham muito mais do que as capas coloridas, né? Que professor nunca encontrou um aluno inseguro na hora de segurar o lápis? Mas aposto com você que esses mesmos dedinhos são rápidos na hora de deslizar vídeos. Os olhares são atentos ao que pisca, mas basta abrir uma página, e eles estão cansados.

Me lembro de uma frase bastante conhecida, atribuída a Bill Gates: “Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros.” A frase ecoou forte e fixou-se em mim. Claro, não quero pregar aqui uma rejeição à tecnologia. Eu a amo! E uso até demais. Mas essa citação nos traz um lembrete de prioridade. Antes da tela, a palavra. Antes do clique, a imaginação.

Escrevendo agora, essa conversa me leva de volta ao meu próprio passado. Lembro-me bem de uma reunião no ensino médio em que minha mãe foi à escola. A queixa de um dos professores era curiosa: eu estava lendo o tempo inteiro durante as aulas. A pergunta que ficou, e que hoje faço com outros olhos, é simples: eu estava perdendo ou estava ganhando? Quando a aula se tornava entediante, eu não media esforços: discretamente, tirava um livro

da mochila e me debruçava sobre ele. Na escola, eu aprendi a ler. E, na escola, eu lia. Eles podiam me culpar por isso?!

Como professor, tento não deixar essas reflexões apenas na memória. Todos os anos, no início das aulas, costumo fazer um “contrato” simbólico com meus alunos. Digo a eles que tenho dois objetivos muito claros: o primeiro é mudar a ideia de que a matéria de redação é ruim. O segundo é mudar a ideia de que leitura não é boa e que escrever não é um castigo. Explico que escrever não é dom, é exercício. E que ler não é perda de tempo, é construção. Vejo, na escola, uma dificuldade crescente na escrita e organização das ideias. E, junto com isso, percebo a falta de incentivo à leitura, tanto no ambiente escolar quanto fora dele. Costumo dizer que pouco importa se a criança está lendo um gibi, uma fanfic no celular, um mangá ou um conto de suspense. O que importa é que esteja lendo. Que esteja em contato com a palavra e com o tempo mais lento que a leitura exige. Quando a leitura aparece apenas como obrigação, ela perde seu encanto. Mas quando é escolhida e incentivada, ela cria raízes.

Não é querendo fazer aquele tipo de discurso pronto na tentativa de convencer ninguém. Mas, aquele aluno de sete anos, com seus setenta livros, me lembrou que ainda há esperança e que ela começa cedo. Obviamente, isso não nasce do acaso. É preciso exemplo e incentivo. Adultos que leem, contam histórias e oferecem livros como quem oferece cuidado. Precisamos cuidar das nossas crianças.

Tudo isso para dizer que não é sobre formar pequenos leitores vorazes, nem grandes escritores de imediato. Talvez seja apenas sobre garantir que, antes de aprender a tocar uma tela, a criança aprenda a ser tocada pelas palavras. O discurso da maioria das pessoas não é “prepare seu filho para o mundo”? Então, comecemos pelo básico: dar livros a essas crianças. Porque quem cresce cercado de livros, aprende a ler o mundo. E isso, definitivamente, nenhum aplicativo consegue substituir.

 

Professor Pablo Ramon.

Graduando em Letras – Inglês e suas respectivas literaturas. Professor na Escola Modelo de Iguatu e na rede estadual.

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