Quem costuma viajar de carro já deve ter reparado: é comum depararmos com viandantes solitários pelas estradas. São seres esgueiriços, incomunicáveis, invariavelmente vestidos em trapos, os pés descalços, cabelos e barbas enormes, verdadeiros anacoretas a trilhar caminhos que parecem levar a impensáveis destinos.
A estrada é mesmo a metáfora do imponderável.
Está em Dante, “No mezzo del camin de nostra vita me retrovai per uma selva oscura” – ou, em tradução livre, “No meio do caminho de nossa vida me encontrei em uma selva escura.”
Está em Drummond, “No meio do caminho tinha uma pedra”, o mais desconcertante de seus poemas, já em livro de estreia.
Está em Olavo Bilac, expressão máxima do nosso parnasianismo. E em tantos outros incontáveis poetas da literatura ocidental e da Música Popular Brasileira.
As conotações são as mais diversas, mas sempre o caminho a sugerir a trajetória de cada homem, o vir-a-ser de nossa existência.
Com este nome (“Caminhos”), neste mesmo jornal, a sugerir andanças históricas, quem sabe a busca de alternativas de ação para os desafios humanos, Hildernando Bezerra escreveu crônicas antológicas.
Em “Paris, Texas”, o filme clássico de Wim Wenders, vemos o atormentado Travis caminhando por uma estrada deserta, a esperança improvável de reencontrar a mulher amada.
Carlitos, a belíssima invenção de Charlie Chaplin, faz o mesmo em “O adorável vagabundo”, até perder-se, desengonçado e doce, na estrada feita “de pó e de esperança.”
Assim, acho que todos nós, amantes do improvável, em alguma medida, temos um pouco desse componente quixotesco a nos mover ao encontro do desconhecido.
A estrada, o caminho, as veredas de que nos falou Guimarães Rosa, em seu livro memorável, metaforizam essa prazerosa procura das sedutoras descobertas.
É assim que me sinto, e me senti sempre, ao viajar. Embora tivesse o costume de abrir o mapa sobre a mesa, num tempo que já vai distante, e percorrer com o lápis o trajeto a ser seguido, não raro mudava o rumo, a meta programada, como a sonhar alternativas novas de chegar ao destino imaginado.
A viagem tornava-se, ao sabor do imprevisível, mais curiosa e emocionante, as novidades mais surpreendentes, os lugares mais bonitos e mais românticos.
Veio o GPS, guardaram-se os mapas, os roteiros impressos, as revistas de viagem.
A viagem, no entanto, tal qual a vida, também ela bailarina, reedita-se como inesperada novidade, num eterno e divino viravoltear dos sonhos.
Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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