A primeira pessoa que me falou sobre o jiu-jitsu usou exatamente a frase que dá título a este texto.
” É um xadrez humano”, disse um faixa preta e meu colega de profissão à epoca.
Ele usou a isca certa : apelou à inteligência, à curiosidade que tenho por coisas mais complexas. Tivesse dito algo mais banal, apelando à brutalidade ou autodefesa, também teria atraído minha atenção, mas não ao ponto de despertar meu interesse.
A bem da verdade , enxergava esta arte marcial, o jiu-jitsu, com os olhos com que muitos a vêem: um agarra-agarra sem sentido, com certa brutalidade.
Mas podemos acusar o jiu-jitsu de qualquer coisa, menos de não ser honesto quanto a si mesmo. Ele sempre foi sobre dominância. Entretanto traz uma curiosa dominância, onde o mais “fraco” pode, pela técnica bem empregada, subjugar o mais forte.
O que impressiona muita gente, e que também me impressionou de início, é presenciar pessoas leves, de 60 quilos ou menos, subjugarem pessoas fortes, robustas, de 90 quilos ou mais.
O sujeito musculoso chega, convencido de sua própria força, na primeira aula achando que vai intimidar, “amassar” os menores que ele. E o que ocorre? Para sua perplexidade e assombro, tem de dar três tapas ( sinal de desistência) diante de um rapazote que pesa menos que a metade de seu peso. Sem dúvidas, isso magnetiza, atrai.
Até aqui, falei apenas da primeira camada desta arte marcial. Existem várias. Assim como o xadrez traz benefícios à mente, aguça à inteligência, desperta o senso de estratégia e produz paciência, o jiu-jitsu ensina, por meio de suas lições mais óbvias, que a vida, quase sempre,se assemelha a um grande tatame — a vida é luta, diz Nietzsche.
Há dias em que você domina, assume às rédeas, tudo sai como o esperado; dias em que você é surpreendido pela graça. A força está ali, o vigor, a disposição, e tudo vai bem.
Mas também há dias em que você é subjugado; jogado,à revelia de sua vontade, de um lado para o outro.Esmagado , quase jogando a toalha, tenta um último truque que não funciona.
Dias em que tudo que foi treinado, ensaiado, aspirado e repetido, quase que mecanicamente, não dá resultado. Dias em que a força fraqueja, a técnica falta, o caos assume.
Nesses dias, entra em cena uma outra camada, por vezes oculta nesta arte marcial; uma lição esquecida pelo mundo moderno, que ressurge em forma de um rito antigo: o rito de iniciação.
Pessoas fazem um círculo, posicionam -se pela hierarquia, do mais experiente( diz-se graduado, faixa superior) ao iniciante. A primeira regra é: aqui há regras.
Há respeito aos mais antigos. Você precisa de permissão para entrar no ambiente. Precisa ser convocado para participar de combates que simulam uma luta real, dessas em que muita coisa pode estar em jogo, inclusive sua integridade física.
Existe paciência e complacência dos mais experientes, mas não espere moleza. O que se passou lá fora, de bom e de ruim, tem de ficar lá fora, senão você perde. E, tantas vezes, perdemos para nós mesmos.
O que importa é o presente, aquele “segundo do soldado”, pois, num piscar de olhos, você pode ser finalizado. É tudo muito rápido. É preciso estar atento, ” acordado”.
Você precisa se provar. Obedecer. Aceitar as coisas como elas são. Não há desculpas. Se, até aqui, nada do que foi dito faz sentido, recomendo que você procure uma academia urgentemente. Talvez você não precise, talvez não saiba que precisa.
Se contar com um bom professor ( cujos ancestrais recebiam vários nomes — cacique, chefe, xamã, líder etc) estará participando de uma experiência primitiva. Essa experiência subjaz dentro de nós, esperando que a reconheçamos.
O nosso mundo é regido pela pressa, pelo sucesso, pelo bem-estar, pelas aparências. O rito nos salva do narcisismo. Faz você repetir, de novo e de novo, a mesma coisa, mesmo que não receba o que espera de imediato.
Precisamos aprender, novamente, a levantar do chão. A não se desesperar quando as coisas estão indo mal; pois, como ocorre no jiu-jitsu, nem sempre o chão, a desvantagem, a aparente derrota, é concretizada no fim. Tente de novo.
E acontece que, tanto na vida como também no jiu-jitsu, existe a esperança pela reviravolta. O último golpe. Parafraseando um título de um livro, ” O Deus oculto no canto do tatame”.

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