A bola e o senil

30/04/2022

A bola cai mais uma vez no quintal do senil aleijado. Era um Casmurro, do Machado; sem companhia e sem sequer, neste caso, perspectiva de traição por uma bela amada – que este nunca possuiu. As crianças do bairro o chamavam ‘‘O Moribundo’’, pois, como o nome sugere, presumiam que o velho não passaria daquele ano, posto o desgaste instaurado em seu corpo e alma. ‘‘Assim como em todos os anos, o ancião ainda insistia em respirar’’, dizia a meninada.

A senectude é uma praga que só quem morre cedo, tem o (des)prazer de evitá-la. O ancião vivia só e sem vizinhos. Sua casa isolada em um terreno baldio era a única conquista de sua longa vida. Sem filhos, o decrépito passava seus dias trancafiados entre os vãos de pouca luz da sua residência. Mas, como mencionei, a bola caiu e, ao contrário das outras vezes, os meninos pretendiam recuperar essa sua derradeira bola.

Como toda figura insólita, o velho passava a impressão de ser uma espécie de feiticeiro, de duende ou qualquer ser fantasioso – típico das histórias mitológicas. Apesar de não possuir ambas as pernas, o ancião dispensava o uso de cadeira de rodas; o que lhe dava uma aparência estranha enquanto caminhava, equilibrando-se sobre os joelhos. Tinha ‘‘capuchos’’ alvos e ralos espalhados timidamente sobre a cabeça cheia de manchas amarronzadas.

O menino cai do muro quando o vê sem camisa, onde seus ossos pontudos pareciam um par de chifres: um em cada lado do ombro da criatura bizarra. O jovem não tem tempo de correr ante a visão que o paralisou. O velho o alcança correndo por sobre seus joelhos, numa velocidade invejável. Agarra-o pelo braço e puxa-o para dentro do casebre esmo, sem vizinhos ou qualquer coisa que lembrasse gente.

O velho entrega a bola que caíra no quintal e todas as outras oito bolas caídas nos últimos três anos. Deu-lhe chá de erva cidreira e pediu-lhe que ficasse um pouco mais para que pudesse, por fim, falar com alguém que não fosse ele próprio. O menino, agora mais tranquilo, já não temia pelo aspecto sinistro da anomalia do senhor nonagenário. Riu até algumas vezes, como quando o decrépito queimou a ponta dos dedos ao preparar o chá e quando tentou pegar um copo que, caindo, quebrou-se por completo, espalhando cacos por todo o diminuto vão.

– Em um dia distante, acredite, já fui tão belo quanto a ti, garoto matreiro e audacioso! – Disse o velho. – Já andei de bicicleta e joguei bola. Nunca tive amores que não fosse a minha mãe e a minha falecida cadela Judith. – Seguiu desabafando.

– Hoje, nada tenho que não seja repúdio por parte de todos pelo meu aspecto e pela minha vida isolada – Esta, que é efeito, não causa da minha misantropia – Desabafou o velho.

– Mas, senhor… – O menino tenta argumentar, mas é interrompido.

– Cale-se! Não estou chateado com o mundo. O aceito, meu caro jovem peralta!

– Leve as suas bolas de futebol, um quadro feito pela minha própria mão canhota, um abraço desta triste e repugnante criatura e diga ao mundo, que me odeie menos… Garanto não durar muito. Feneço antes dos 100. Garanto! Garanto!

Aos noventa e nove, morre o velho, de causas naturais. O garoto – agora rapaz – foi o único presente no velório. Em seu caixão, deposita um bilhete com a seguinte frase: ‘‘Em um dia distante, quero ser como você, meu ranzinza-pintor favorito. Suas mãos calejadas prepararam o melhor chá que já provei. E a sua conversa foi a mais agradável dentre todas. Um dia distante, quero a sua fisionomia e o seu coração! Vá em paz…’’,

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

MAIS Notícias
A taberna das horas mortas –  final
A taberna das horas mortas – final

A essa altura, estava claro que aquela figura idiossincrática estava envolta em mistérios; sua filosofia alicerçada aos grandes intelectuais da literatura e o seu modo de vida igualmente peculiar lhe conferiam uma atmosfera quase palpável. Senti um turbilhão de...

A taberna das horas mortas – parte I
A taberna das horas mortas – parte I

A taberna estava praticamente vazia quando cheguei, embora não fosse muito tarde. O dia tinha sido um daqueles que queremos esquecer no fundo de uma garrafa. Nós, os alcoólatras, afogamos dias assim, e, nos dias bons, celebramos com outra garrafa, amigo abstêmio que...

Um ser com sede?
Um ser com sede?

  A história – ou estória, se preferir – que irei relatar hoje, amigo leitor, ocorreu lá pelos saudosos idos da década de 1990. Finalzinho dela, na verdade, embora eu não saiba precisar o ano. Minha vó, que atualmente conta com 87 anos, foi quem relatou o...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *