Sobre a miserável mediocracia intelectual contemporânea – parte I

29/08/2026

 

 

Há uma espécie humana que prosperou no Brasil com a mesma facilidade com que o mofo prospera em parede úmida: o medíocre intelectual. Ele não lê — opina. Não estuda — comenta. Não pensa — reage. Não conhece — sentencia. Seu universo cabe inteiro numa tela de celular.

Leu uma frase atribuída a Nietzsche numa imagem de Instagram e já se sente autorizado a explicar a existência humana. Viu um vídeo de quinze segundos sobre Dostoiévski e descobriu a psicologia. Decorou duas palavras de Schopenhauer e passou a diagnosticar o pessimismo alheio. Leu um resumo de 1984 e agora compreende o totalitarismo. Nunca abriu Platão, mas discute democracia. Nunca atravessou as páginas de Machado de Assis, mas sabe explicar “o Brasil”. Nunca enfrentou uma página de Tolstói ou Kafka, mas tem opinião definitiva sobre alta literatura.

É a cultura do sujeito que não conhece o livro, mas conhece a opinião sobre o livro. E isso lhe basta. Porque a mediocridade intelectual contemporânea não quer conhecimento. Conhecimento dá trabalho. Conhecimento exige silêncio, paciência, dúvida, disciplina e, sobretudo, a humilhação de descobrir que você não sabe. O medíocre odeia essa humilhação. Ele precisa estar certo. Sempre.

Na política, então, a coisa se torna quase grotesca. O cidadão escolhe seu político como quem escolhe time de futebol. Não lê projeto, não conhece história, não entende instituições, não sabe distinguir Estado de governo, muito menos República de democracia. Mas conhece perfeitamente o inimigo. Temos milhões de especialistas em política que jamais leram uma Constituição com atenção, jamais abriram um clássico de ciência política e jamais estudaram seriamente a formação histórica do próprio país.

Mas viram um corte. E o corte resolveu tudo. O algoritmo lhe entregou um culpado, um herói, uma frase de efeito e um inimigo. Pronto. Está formado o pequeno animal político contemporâneo: indignado, convicto e intelectualmente desarmado. Ele não quer compreender. Quer vencer uma discussão. E há diferença brutal entre as duas coisas.

Compreender exige que você eventualmente admita que o adversário pode ter razão. Vencer uma discussão exige apenas que você fale mais alto, encontre uma ofensa mais eficiente ou copie algum argumento que ouviu de uma pessoa que também não estudou o assunto. É assim que a burrice ganha verniz de convicção.

Na literatura, o desastre é ainda mais triste. O sujeito lê apenas aquilo que confirma aquilo que já pensa. Procura personagens que lhe sirvam de espelho, frases que possam virar legenda e livros que possam ser consumidos como produto de identidade. A literatura, que deveria desorganizar sua cabeça, passa a funcionar como decoração dela. Ele não lê para ser transformado. Lê para se sentir inteligente. E há coisa mais ridícula do que alguém terminar um romance de quinhentas páginas exatamente com as mesmas certezas com que começou?

Diante de um grande clássico, o medíocre pergunta: “Mas qual é a moral?”  Como se Dostoiévski fosse vendedor de curso motivacional. Como se Shakespeare tivesse obrigação de entregar uma lição de vida no final. Como se Dom Quixote fosse um manual de comportamento. Como se Crime e Castigo existisse para ensinar “a importância de fazer o bem”. O clássico não foi escrito para acariciar sua ignorância. Foi escrito, muitas vezes, para destruí-la.

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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