O Sequestro da Independência

03/09/2022

A poucos dias do 7 de setembro que assinala o Bicentenário da Independência, e mais uma vez descoberto em práticas em nada republicanas (transações imobiliárias que envolvem a compra de 107 imóveis, 51 dos quais pagos em dinheiro vivo) o presidente Jair Bolsonaro dá andamento a uma programação festiva cujo maior objetivo é mesmo vincular a sua imagem a de um líder heroico e destemido que defenderá o país da ameaça comunista que somente a sua mente estreita e vazia é capaz de enxergar. E, claro, o contingente de fanáticos, a exemplo de certos empresários, que sonham com a possibilidade de um golpe e a volta dos militares ao poder.

O mais preocupante, no entanto, é que o país assiste impotente ao sequestro dos símbolos nacionais e à propagação de um discurso ufanista e patriótico que se contrapõe aos verdadeiros anseios populares. Na lógica fascistoide do presidente e de setores das Forças Armadas, com destaque para o golpismo irrequieto do ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, busca-se a todo custo à consolidação do projeto imaginário em que a semiótica das cores, do brasão, da bandeira e do hino, no oportunismo da data festiva, parece criar uma irrealidade na qual um contingente significativo de pessoas acredita como algo palpável – e, a concluir pelo que se vê e ouve nas redes sociais, pela qual está disposta a matar ou morrer, como numa reverberação inconsciente do grito que a história oficial registra como marco da Independência do Brasil.

Feitos esses comentários, dedico-me ao objetivo desta coluna.

Chega às livrarias da cidade (não sem significativo atraso), o oportuno e valiosíssimo “O Sequestro da Independência – Uma história da construção do mito do Sete de Setembro”, assinado por Carlos Lima Jr., Lilia M. Schwarcz e Lúcia K. Stumpf, em edição extremamente bem cuidada da Companhia Das Letras. Li-o em poucas sentadas, pois que se trata de uma leitura prazerosa, levíssima, em que pese a natureza do tema abordado. É que o livro se propõe, exitosamente, sem incorrer nos procedimentos tradicionais da narrativa historiográfica, enfocar os meios sub-reptícios com os quais se ergueu entre nós a ilusória imagem de um país guiado por homens viris e idealistas, fortemente movidos por um sentimento de amor à pátria e leais aos interesses do povo. Explico.

Transitando levemente pelo território da semiologia, numa perspectiva menos teórica e mais voltada para o grande público, sem jamais descer a uma abordagem elementar do ponto de vista acadêmico, o livro traz um farto material visual que não lhe serve apenas de ilustração, a exemplo do que é comum em publicações do gênero. Aqui as imagens, em sua maioria obras de arte destinadas a compor o acervo iconográfico que serve de amparo às narrativas históricas (ou exploradas com essa intenção), são examinadas enquanto textos produtores de sentidos ideológicos previamente pensados (ou não) e que contribuem para uma interpretação positiva de acontecimentos reais ou forjados com a intenção de construir o imaginário popular em termos de pertencimento, nacionalidade e sentimento pátrio.

Nessa perspectiva teórica, pois, é que os autores do livro elegem como ponto de partida e objeto central das análises, a famigerada tela de Pedro Américo sobre “O Grito do Ipiranga”, a partir da qual conduzem a reflexão crítica que serve de esteio a seu belíssimo trabalho. Não é precipitado dizer, assim, que o livro dialoga com o que se define como ‘tradução intersemiótica’, na linha do que é possível examinar a partir das contribuições de estudiosos importantes, como Walter Benjamin, Ezra Pound, Roman Jakobson, Umberto Eco e Haroldo de Campos.

No caso, a direção escolhida é outra, isto é, a interpretação do texto se dá do signo visual para o verbal, da linguagem estética para a linguagem referencial. Há nisso, em alguma medida, um pouco de Charles Sanders Peirce, de Roland Barthes e, mesmo, de George Didi-Huberman, Emmanuel Alloa e Jacques Rancière. Para o leitor, no entanto, desconhecer essa fundamentação teórica em nada reduz a perfeita compreensão do que é essencial ao livro: a interpretação da imagem a partir do interdito, do que, fugindo ao olhar desatento, constitui a força de sentido, a mensagem muitas vezes desvelada e carregada de motivações de cunho político-ideológico.

Benjamin já nos advertia de que a obra de arte deve ser compreendida em três momentos de sua evolução: a elaboração técnica, a elaboração das formas de tradição e a elaboração das formas de recepção. Mas é Marx, no 18 de Brumário de Luís Bonaparte, quem melhor se presta ao que quero dizer aqui: “Os homens fazem a própria história, mas não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”.

Por último, desculpando-me pela extensão do fragmento destacado, dou voz aos autores deste impagável “O Sequestro da Independência” a fim de ressaltar sua importância a poucos dias do Bicentenário: “… o que Bolsonaro faz de melhor é usar efemérides para travar guerras ideológicas. Isso porque até meados de 2022, além de não anunciar nada de efetivo – apenas surfou na onda de edifícios já iniciados e fez muito discurso na base do ódio e da polarização da população. Como o tom da celebração é dado apenas pela exaltação do patriotismo vazio, também tem se buscado repetir a celebração de 1972, quando, em tempos de ditadura militar, entrou no Brasil o corpo de Pedro I. Passados cinquenta anos, pretende-se agora “emprestar” o coração do primeiro imperador do Brasil, o qual, em testamento, demandou que esse órgão de seu corpo ficasse depositado na cidade do Porto”.

 

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Lembrar para jamais esquecer
Lembrar para jamais esquecer

    Vez e outra, vejo na rede social posts do secretário de Cultura de Iguatu, Honório Barbosa, com informações importantes sobre ruas, logradouros, prédios públicos e coisas e tais, iniciativas que visam a resgatar a memória perdida de nossa cidade. Faz...

Encontro de velhos amigos
Encontro de velhos amigos

      Dia desses, entre surpreso e indignado, precisei dos trabalhos de uma advogada, que nem sempre saem ao gosto do leitor as coisas que escrevo aqui. É que homens públicos, afeitos às conveniências e aos elogios fáceis, o mais das vezes insinceros e...

As Boas Mulheres da China
As Boas Mulheres da China

    Vejo no jornal estatística atualizada da violência contra a mulher no Brasil. São números assustadores. Há coisa de uns muitos anos, uma amiga de Piracicaba recomendou que eu lesse “As Boas Mulheres da China”, da jornalista Xinran. Passado tanto tempo,...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *