Dia desses, entre surpreso e indignado, precisei dos trabalhos de uma advogada, que nem sempre saem ao gosto do leitor as coisas que escrevo aqui. É que homens públicos, afeitos às conveniências e aos elogios fáceis, o mais das vezes insinceros e carregados de outras intenções, não sabem conviver com o contraditório. Não descerei a detalhes, que, por enquanto, não me convém, e nem seria de bom tom fazê-lo, assim, ao arrepio da ética e da correção de propósitos. Jornalismo literário, insisto, é o que sei e gosto de fazer.
Pois bem, precisando enfrentar o desconhecido, que no Brasil até a mais elementar obviedade legal ganha foros de improvável, liguei para uma amiga que tem se feito notar pela competência no campo do Direito Penal, e a conversa, cheirando a saudade, foi para além do previsto, das alternativas de ação e tecnicalidades jurídicas que o caso estava a pedir. Eram dois amigos, depois de muitos e muitos anos, revivendo, pelo expediente da memória e força das circunstâncias, pedaços de uma história que ajudaram a construir juntos, servidores dantanho de uma respeitável instituição federal de ensino.
Já a esta altura, devo registrar: Há pessoas que entram na sua vida, nos meandros de sua trajetória profissional, como é o caso, e ficam grudadas para sempre nas paredes da memória e das mais ternas lembranças. Umas porque tão-somente dividiram com você as mesmas tarefas, atravessando o tempo, ali, lado a lado, ganhando com o suor do rosto e a correção do labor o que vulgarmente dizemos ser o nosso pão de cada dia. Outras, à maneira de Fernando Pessoa, o poeta português, por suas qualidades de caráter. Algumas, pela falta dessas qualidades. Outras, ainda, por que apenas simpatizamos com elas, por razões muitas vezes simples e inusitadas: um jeito original de falar, de elaborar ideias, de expressar princípios, de afirmar convicções, mesmo quando negando a lógica e a racionalidade. Existem as tolas, as presunçosas, as insuportavelmente antipáticas. Aqui comigo, questão de consciência e gratidão, essas foram poucas, se existiram de fato. Na contramão desses atributos, felizmente, existem aquelas que, desde cedo, conquistam seu coração: são gentis e solidárias, elegantes, belas, no sentido mais inteiro da beleza: a beleza que não se pode ver com os olhos. E, claro, as fisicamente belas, os olhos e as curvas a quedar nas retinas. Neste sentido, natural, as muito feias — feias de chamar a atenção. E no entanto boas.
Pois bem, essa minha amiga, não sendo por certo uma unanimidade, que toda unanimidade é burra, como nos advertia Millôr Fernandes, um gênio de nossa inteligência, também ele exposto a juízos contraditórios, pertence a minha amiga a grupo especial. Com a evidência de possuir ela outras particularidades: uma fina ironia, por exemplo, dessas que desconsertam o interlocutor sempre que o interlocutor (a redundância é intencional) quiser dar uma de bacana, fingindo ser aquilo que não é. E outra além, que me ocorre lembrar com exemplar definição: minha amiga notabilizou-se por estar invariavelmente de bom humor, mesmo nos momentos difíceis, como tantas vezes teve de enfrentar: o preconceito, a incompreensão, o julgamento desprovido de qualquer bom sentimento e mínima isenção. Porta-se com altivez e graça, havendo nela um não-sei-quê da irreverência de Florbela Espanca, de Frida Kahlo, de Preta Gil, de Rita Lee. Essa, por sinal, é uma das qualidades que mais admiro em minha amiga, pois que nos ensinou, sem que nem mesmo soubesse, a desconsiderar a hipocrisia, a maledicência, a falta de cortesia de uma sociedade oblíqua e dissimulada tal qual os olhos de Capitu.
Na outra ponta da linha, como se dizia à época dos telefones fixos, minha advogada atendeu: “Diga, meu professor querido! Em que posso lhe servir?”
E era tanto o otimismo, tanta a espontaneidade e a segurança da profissional, tão doce e tão desinteressado o carinho, que quase nos esquecemos da razão por que nos falávamos depois de muitos e muitos anos. Confesso que me vieram à mente as palavras de minha mãe: “Não há males que não tragam um bem!”. É este o caso, pelo que, ao invés de me derrubar, elevou aos píncaros a minha dignidade e a minha satisfação, como escritor e como homem. Para não me alongar, abusando da paciência generosa do leitor, fico portanto por aqui, neste misto de desabafo e de crônica para cumprir pauta de jornal.
Ah, antes que outra vez me esqueça, minha amiga tem nome: Para estranhos, doutora Mariah Lopes. Para os amigos, foi e será sempre, Mariazinha, desse jeito, no diminutivo afetivo, que é profunda a minha afeição.
E é tão grande a mulher!
Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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