Último dia

02/12/2023

No prédio ao lado, podia-se ouvir vozes sem que se pudesse, com isso, entender sobre o que falavam ou sobre quais palavras utilizavam. O Condenado presume que os colóquios seriam sobre a sua sentença. No prédio de parede mofada pela chuva, o homem sem sorte nada podia fazer que não esperar pela sua hora. Despedir-se do mundo – já que não havia de quem se despedir – era a sua única e final tarefa. Sem mulher, filhos ou parentes distantes, o homem assassino entretinha-se em fugas morosas lendo dias e noites adentro.  Leu como nunca antes em toda sua vida.

Arrependera-se, com essa experiência, de não ter atentado para esse hábito salutar. Viu-se em diferentes formas de vida e épocas em cada uma das personagens das literaturas portuguesa, russa e francesa. Os livros lhes eram entregues pelo senhor da padaria, que o ‘‘estimava’’ por pura ação humana (egoísmo envolto em interesse), pensando receber alguma recompensa na vida futura, no pós-morte. Na verdade, mandava que alguém os entregasse. Não lhe convinha manter relações amistosas com um parricida.

As conversas vindas do prédio ao lado cessam. Ouvia-se, daí em diante, apenas o silêncio da madrugada: gatos remexendo os latões de lixo, cachorros impedindo, aos latidos, que os felinos fizessem suas refeições soturnas; um carro que passa, prostitutas e bêbados discutindo valores e cantando… Enfim… É a vida boêmia dos homens e dos animais, que pode ser vista pela diminuta janela da cela do prédio de parede mofada.

O condenado deixa cair um pensamento nostálgico e furtivo de sua saudade da liberdade através de uma fina e cristalina lágrima. Os olhos marejados são recompostos pelas mãos assassinas. Os dedos cortados pelo vidro no dia da contenda seguram um lápis utilizado para grifar trechos importantes do livro – que também carregava em uma das mãos. Saiu da janela e foi acomodar-se no incômodo leito de alvenaria dura feito a vida. O ambiente era pouco iluminado. Guardou o livro e pesou os olhos.

O dia amanheceu chuvoso e triste, parecia lamentar a triste sina iminente do condenado . Era o primeiro dia da sua morte e o último de sua vida. Pediu ovos e cigarros no café da manhã. Abraçou seus livros e pediu perdão à sua mãe em oração – coisa que não fazia desde a juventude era orar. ‘‘Obrigado, escritores amigos. Obrigado, tempos atrás das grades. Hoje sou um homem melhor graças a vocês. ’’ – disse em voz alta, mas sem pretensão de ser ouvido pelos militares que o aguardavam à porta da cela.

Chorou e pediu para ser enterrado com os portugueses, russos e franceses…

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

MAIS Notícias
O 1° turno: o Brasil virou à Direita
O 1° turno: o Brasil virou à Direita

Para começar, amigo leitor, intento não colocar dados e informações matemáticas em demasia; apenas o básico, para, assim, não tornar esta crônica enfadonha. Serei o mais direto e objetivo possível. Vamos lá! Primeiramente, preclaro leitor, ante o resultado desse...

O caso Lourival – final
O caso Lourival – final

  Foi então que ouvi um ruído vindo dos fundos do bar. Como passos. Lentos. Arrastados. Leonardo ficou pálido. — Não deveria ter vindo hoje. — Quem? Ele não respondeu. Os passos pararam. Durante alguns segundos, nada aconteceu. Então ouvimos três batidas na porta...

A urna, o amanhã e a escolha da Liberdade
A urna, o amanhã e a escolha da Liberdade

    Existe no caminhar em direção à seção eleitoral no domingo um silêncio peculiar. Não importa o barulho do trânsito ou a movimentação nas calçadas; quando chegamos à porta do colégio onde votamos, o país inteiro parece prender a respiração por um...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *